Espirros constantes, olhos irritados, alergias alimentares e crises respiratórias parecem cada vez mais comuns. Mas esse crescimento não pode ser explicado apenas pela genética. Afinal, nosso DNA não muda tão rápido. O que mudou, então? A resposta está no ambiente em que vivemos hoje — muito diferente daquele para o qual nosso corpo evoluiu. E entender essa transformação ajuda a explicar por que nosso sistema imunológico está reagindo de forma diferente.
Um ambiente moderno que o corpo ainda não entende
Nas últimas décadas, nosso estilo de vida mudou drasticamente. Passamos mais tempo em ambientes fechados, com menos contato com a natureza e com animais.
Esse cenário reduz a exposição a microrganismos que, ao longo da evolução, ajudaram a treinar o sistema imunológico.
Segundo a chamada “hipótese da higiene”, crescer em ambientes muito controlados pode aumentar o risco de alergias. Isso porque o organismo deixa de aprender a diferenciar corretamente o que é perigoso do que é inofensivo.
Em ambientes rurais, por exemplo, esse contato é maior — e isso pode contribuir para um sistema imunológico mais equilibrado.
O conceito de exposoma: tudo o que nos cerca importa

Os cientistas usam o termo “exposoma” para descrever todas as exposições ambientais ao longo da vida.
Isso inclui desde o ar que respiramos até os produtos que usamos diariamente. E muitos desses fatores estão diretamente ligados ao aumento das alergias.
Poluentes, produtos químicos e até microplásticos fazem parte desse conjunto invisível que influencia o funcionamento do organismo.
A barreira do corpo está mais vulnerável
A pele, o intestino e as vias respiratórias funcionam como uma barreira natural contra o ambiente externo.
Quando essa proteção está intacta, impede a entrada de substâncias potencialmente nocivas. Mas fatores como poluição, alimentação inadequada e produtos químicos podem enfraquecê-la.
Com essa barreira comprometida, alérgenos entram com mais facilidade, ativando o sistema imunológico de forma exagerada.
Esse processo está diretamente ligado ao surgimento de doenças alérgicas.
A qualidade do ar também faz diferença
O ar que respiramos desempenha um papel crucial. Partículas finas e gases poluentes podem danificar as vias respiratórias, tornando o organismo mais sensível.
Isso facilita a entrada de substâncias irritantes e aumenta a inflamação, agravando os sintomas alérgicos.
Em grandes cidades, esse fator se torna ainda mais relevante.
Mais pólen e por mais tempo
As mudanças climáticas também estão contribuindo para o problema.
Temperaturas mais altas e níveis elevados de dióxido de carbono fazem com que as plantas produzam mais pólen — e por períodos mais longos.
Além disso, fenômenos como tempestades e incêndios podem aumentar a quantidade de partículas irritantes no ar.
O resultado é uma exposição maior e mais intensa aos agentes que causam alergias.
O impacto dos produtos do dia a dia
Estamos constantemente em contato com substâncias químicas presentes em alimentos, roupas, cosméticos e produtos de limpeza.
Alguns desses compostos podem interferir no sistema imunológico e favorecer respostas alérgicas.
Os microplásticos, por exemplo, estão sendo estudados por sua capacidade de provocar inflamação e transportar contaminantes.
Mesmo sem perceber, o cotidiano pode estar contribuindo para o aumento das alergias.
Os primeiros anos de vida são decisivos
O desenvolvimento do sistema imunológico começa muito cedo, ainda na gestação e nos primeiros anos de vida.
Nesse período, o organismo aprende a reconhecer o que é seguro e o que representa risco.
Fatores como alimentação, microbiota e exposição ao ambiente deixam marcas que podem influenciar a saúde por décadas.
Por isso, hábitos nessa fase têm um impacto duradouro.
O que pode ser feito no dia a dia
Embora não seja possível voltar ao passado, algumas mudanças simples podem ajudar a reduzir o risco de alergias:
- Priorizar alimentos frescos em vez de ultraprocessados
- Reduzir o uso de plásticos, especialmente ao aquecer alimentos
- Ventilar ambientes internos com frequência
- Evitar produtos com excesso de químicos desnecessários
- Optar por roupas de materiais naturais
- Passar mais tempo ao ar livre
Essas ações ajudam a diminuir a exposição a substâncias prejudiciais e favorecem um sistema imunológico mais equilibrado.
Um problema que vai além do indivíduo
O aumento das alergias não depende apenas de escolhas pessoais. Ele também está ligado ao ambiente coletivo.
Políticas públicas voltadas à redução da poluição e ao controle de substâncias químicas são fundamentais para enfrentar o problema.
No fim das contas, o crescimento das alergias reflete uma mudança profunda na forma como vivemos — e na relação entre o corpo humano e o mundo ao redor.
[Fonte: The conversation]