Pular para o conteúdo
Ciência

O pó que escurece o gelo da Groenlândia: como partículas minerais estão alimentando algas, acelerando o derretimento — e empurrando a calota para um ponto sem volta

Um novo estudo mostra que o pó mineral depositado sobre a Groenlândia carrega fósforo suficiente para estimular o crescimento de algas glaciares. Essas manchas biológicas escurecem o gelo, reduzem sua capacidade de refletir a luz solar e aceleram o derretimento, levantando alertas sobre o avanço irreversível da perda de gelo e a elevação do nível do mar.
Por

Tempo de leitura: 3 minutos

A Groenlândia abriga a segunda maior camada de gelo do planeta, atrás apenas da Antártida. Durante décadas, cientistas vêm acompanhando sua retração acelerada, impulsionada pelo aquecimento global. Agora, uma pesquisa liderada pela University of Waterloo acrescenta uma nova peça a esse quebra-cabeça: o papel do pó mineral como fertilizante natural de algas que escurecem o gelo e intensificam o derretimento.

O estudo sugere que esse processo cria um ciclo de retroalimentação perigoso, capaz de transformar áreas claras e refletivas em superfícies cada vez mais escuras — e, portanto, mais vulneráveis ao calor do Sol.

Pó mineral, fósforo e o gatilho biológico do degelo

O que está fazendo a “geleira do Apocalipse” tremer centenas de vezes na Antártida
© Pexels

A equipe internacional, coordenada pela geomicrobiologista Jenine McCutcheon, analisou amostras coletadas ao longo de dois anos diretamente sobre a superfície da calota groenlandesa. Os resultados, publicados na revista Environmental Science & Technology, mostram que o pó mineral presente no gelo tem origem principalmente nas próprias rochas locais da Groenlândia.

O detalhe crucial está na composição dessas partículas: elas contêm fósforo, um nutriente essencial para o crescimento das chamadas algas glaciares.

Quando esse pó se deposita sobre o gelo, ele funciona como um fertilizante natural. As algas se multiplicam, formando extensas áreas pigmentadas que reduzem o albedo — a capacidade da superfície de refletir a luz solar. Quanto menor o albedo, maior a absorção de energia, o que eleva a temperatura local e acelera o derretimento.

Segundo os pesquisadores, a quantidade de fósforo que chega anualmente à superfície é suficiente para sustentar grandes populações dessas algas, um fenômeno já observado em várias regiões da Groenlândia. Não por acaso, o local figura hoje entre as áreas do planeta onde a perda de gelo ocorre mais rapidamente.

Algas viajantes e a colonização de novas áreas

Algas Da Neve
© University of Cambridge

O estudo também identificou algo ainda mais inquietante: além do pó mineral, os cientistas coletaram aerossóis biológicos contendo células de algas tanto da neve quanto do gelo.

Isso levou à hipótese de que esses microrganismos podem se deslocar pelo ar, transportados pelo vento, e colonizar regiões distantes daquelas onde surgiram originalmente.

Na prática, isso significa que as algas não dependem apenas do crescimento local. Elas podem “viajar” pela superfície gelada, iniciando novas colônias em áreas antes intactas. Esse mecanismo ajuda a explicar como o escurecimento do gelo pode se espalhar com rapidez, ampliando o impacto do degelo em escala regional.

Combinado ao aporte contínuo de pó mineral rico em fósforo, esse processo cria um cenário propício à expansão acelerada da atividade microbiana.

Não é só poeira: o papel do fuligem e dos incêndios

Os pesquisadores também chamam atenção para outro fator que atua em conjunto com o pó e as algas: o depósito de fuligem, partículas escuras liberadas principalmente por incêndios florestais.

Durante o trabalho de campo, a equipe coletou amostras de fuligem atmosférica que haviam se acumulado sobre o gelo. Assim como as algas, esse material escurece a superfície e reduz o albedo, intensificando a absorção de calor.

Com o aumento da frequência e da intensidade de incêndios em várias partes do mundo, cresce também o transporte dessas partículas para regiões polares. O resultado é uma vulnerabilidade ainda maior da camada de gelo, com implicações diretas para comunidades costeiras, que dependem de previsões mais precisas sobre a elevação do nível do mar.

Um sistema que se retroalimenta

O quadro que emerge é o de um sistema complexo, no qual processos geológicos, biológicos e atmosféricos se reforçam mutuamente. O pó fornece nutrientes, as algas escurecem o gelo, o gelo derrete mais rápido, novas superfícies ficam expostas — e o ciclo continua.

Para os cientistas, entender como esses elementos interagem é essencial para refinar modelos climáticos e prever com mais exatidão a velocidade do degelo nas próximas décadas.

Um alerta silencioso vindo do Ártico

Mistério sob o gelo: cientistas descobrem bactérias desconhecidas que transformam o Ártico em um laboratório vivo
© Unsplash – Keith Tanner.

A pesquisa reforça uma preocupação crescente: a perda de gelo da Groenlândia não depende apenas do aumento da temperatura do ar. Pequenos agentes, como partículas minerais, microrganismos e fuligem, podem ter efeitos desproporcionais ao alterar a cor e o comportamento térmico da superfície.

O que parece apenas poeira carregada pelo vento pode, na prática, empurrar uma das maiores reservas de gelo do planeta rumo a um ponto de não retorno. E, com ela, redefinir o futuro das costas em todo o mundo.

 

[ Fonte: Infobae ]

 

Partilhe este artigo

Artigos relacionados