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Ciência

Glitter: o brilho que encanta no Carnaval pode estar envenenando rios e oceanos

O glitter domina fantasias e maquiagens na folia, mas por trás do efeito reluzente há microplásticos quase invisíveis que viajam por bueiros e ameaçam ecossistemas aquáticos.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Basta chegar o Carnaval para que ruas, blocos e avenidas se transformem em um mar de cores e brilho. O glitter virou símbolo da festa: está no rosto, no corpo e até no cabelo de milhões de foliões. Mas enquanto a luz reflete e encanta, algo microscópico escapa pelo ralo. O que parece inofensivo pode estar alimentando um problema ambiental silencioso — e persistente.

Do asfalto ao oceano: o caminho invisível do glitter

Glitter: o brilho que encanta no Carnaval pode estar envenenando rios e oceanos
© Pexels

O glitter tradicional é feito, em grande parte, de plástico — especialmente politereftalato de etileno (PET). Suas partículas medem frações de milímetro e, justamente por isso, passam despercebidas a olho nu. Depois da folia, boa parte desse material é lavada no banho ou pela chuva e segue pelos bueiros.

A jornada continua por redes de esgoto e rios até alcançar o mar. No caminho, essas partículas se acumulam em ambientes aquáticos e tornam-se parte do crescente problema global dos microplásticos.

Estudos já mostram que eventos festivos podem aumentar significativamente a presença desses fragmentos em cursos d’água. Em 2023, por exemplo, pesquisadores detectaram partículas de glitter no Rio Paraíba do Sul meses após o Carnaval, evidenciando que elas persistem no ambiente por longos períodos.

O problema não é apenas visual. Microplásticos funcionam como pequenos vetores de poluição: podem carregar substâncias tóxicas ou adsorver poluentes presentes na água. Ao se espalharem por estuários e zonas costeiras, entram na cadeia alimentar e ampliam o impacto ambiental.

O brilho que parecia efêmero acaba tendo uma vida útil muito maior do que a própria festa.

Impactos que vão além do que se vê

Pesquisas internacionais indicam que o glitter pode interferir em processos naturais delicados. Um estudo publicado na revista Environmental Sciences Europe por cientistas do Trinity College, na Irlanda, revelou que partículas de PET em ambientes marinhos podem atuar como pontos de nucleação para cristais de carbonato de cálcio.

Esse processo é essencial para organismos como corais, moluscos e ouriços-do-mar, que dependem desse mineral para formar conchas e esqueletos. Quando há interferência, o crescimento e a integridade estrutural dessas espécies podem ser comprometidos — afetando toda a base das cadeias alimentares costeiras.

Além disso, o glitter pode se fragmentar em partículas ainda menores, facilitando a ingestão por organismos marinhos. Microrganismos e plantas aquáticas também não ficam imunes. Estudos conduzidos por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) indicam que microplásticos podem interferir na fotossíntese e no crescimento de cianobactérias, organismos fundamentais para o equilíbrio ecológico.

Há ainda a preocupação toxicológica. Algumas partículas podem conter metais ou reter contaminantes químicos, ampliando riscos à biodiversidade e à saúde de rios e oceanos.

O que começa como adorno carnavalesco pode terminar como ameaça microscópica.

Glitter biodegradável é solução definitiva?

Diante das evidências, surgiram alternativas chamadas de “glitter biodegradável”. Muitas versões utilizam celulose vegetal, prometendo decomposição mais rápida e menor impacto ambiental.

Pesquisas indicam que glitters feitos de nanocristais de celulose não prejudicam organismos do solo, como os springtails — pequenos insetos importantes na decomposição de matéria orgânica. Em contraste, o glitter tradicional de PET reduziu a taxa de reprodução desses animais em testes laboratoriais.

No entanto, especialistas alertam que o rótulo “biodegradável” não é garantia absoluta de segurança. Alguns produtos podem manter sua forma por semanas em ambientes aquáticos, dependendo das condições de temperatura, luz e presença de microrganismos.

Ou seja, embora representem um avanço, essas alternativas não eliminam completamente o problema.

A discussão vai além da troca de material. Ela envolve o consumo de itens descartáveis e a lógica de uso momentâneo para efeitos estéticos passageiros. O Carnaval é celebração, cultura e expressão coletiva — mas talvez o verdadeiro brilho esteja em encontrar formas de festejar sem deixar rastros duradouros no meio ambiente.

Afinal, a alegria pode ser intensa sem que precise brilhar para sempre nos oceanos.

[Fonte: Olhar digital]

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