O que começou como uma “banda de mentira” virou um dos projetos mais influentes da música contemporânea. Mais de duas décadas depois, Gorillaz não apenas continua relevante como também mais direto, político e reflexivo. O novo álbum chega carregado de experiências pessoais, críticas ao presente e uma visão clara sobre o futuro — não só da música, mas da sociedade.
De experimento criativo a fenômeno global
Criado no fim dos anos 1990 por Damon Albarn e Jamie Hewlett, Gorillaz nasceu quase como uma brincadeira. A proposta era simples e ousada: formar uma banda com personagens animados, em um momento em que a indústria pop já flertava com a artificialidade.
O que ninguém imaginava é que o projeto ultrapassaria, e muito, esse conceito inicial. Ao longo dos anos, Gorillaz se consolidou como um fenômeno global, acumulando sucessos e colaborações com artistas de diferentes estilos e gerações.
Essa abertura sempre foi uma das marcas do grupo. Em vez de se fechar em um som ou identidade fixa, Gorillaz se tornou um espaço de experimentação constante.
Um álbum atravessado por perdas e significado

O novo trabalho, The Mountain, carrega uma carga emocional mais intensa do que projetos anteriores. A morte de familiares próximos influenciou diretamente a direção do álbum, trazendo temas como luto, memória e transcendência.
Durante o processo criativo, os artistas buscaram referências fora do circuito habitual, incluindo uma imersão cultural na Índia. A experiência ajudou a moldar a ideia central do disco: uma busca interna por sentido em meio ao caos.
Essa dimensão mais introspectiva aparece tanto nas letras quanto na atmosfera sonora, criando um contraste com o caráter mais experimental e colaborativo que sempre definiu o grupo.
Entre nostalgia e tecnologia
Um dos elementos mais curiosos do álbum é a presença de vozes de artistas que já faleceram. Utilizando gravações inéditas, o projeto resgata participações de nomes importantes que marcaram a trajetória da banda.
Ao mesmo tempo, Gorillaz não ignora o avanço tecnológico atual. Pelo contrário: a inteligência artificial aparece como tema — e alvo de críticas.
Para os criadores, o cenário atual da música pop se tornou excessivamente artificial, distante da realidade e, em alguns casos, quase propagandístico. A crítica não é apenas à tecnologia em si, mas à forma como ela é utilizada.
Um posicionamento claro — e raro
Em meio a esse contexto, uma declaração chamou atenção: os criadores de Gorillaz afirmam abertamente sua inclinação política à esquerda.
Em um momento em que grande parte da indústria evita posicionamentos diretos, o grupo segue na contramão, incorporando críticas sociais e políticas em sua obra.
Esse posicionamento também se reflete na forma como encaram a criação artística. Enquanto o pop atual tende ao individualismo, Gorillaz continua apostando na colaboração como base de seu processo.
O retorno ao feito à mão
Outra escolha significativa está na estética visual do projeto. Em um cenário dominado por ferramentas digitais e inteligência artificial, Jamie Hewlett optou por uma abordagem tradicional.
Todo o material gráfico foi produzido manualmente, incluindo animações inspiradas em técnicas clássicas. A decisão funciona como uma resposta direta ao avanço tecnológico — uma espécie de resgate do valor do trabalho artesanal.
Curiosamente, esse movimento não se limita ao visual. O grupo também aposta no retorno de formatos físicos, como CDs, em um momento em que o streaming domina o consumo musical.
Um reflexo do mundo atual
Mais do que um álbum, The Mountain funciona como um retrato do momento atual. Ele reúne questões pessoais, críticas culturais e reflexões sobre tecnologia, política e comportamento.
Ao longo das faixas, surgem temas como controle de informação, manipulação e a forma como a realidade é filtrada em diferentes contextos sociais.
Essa mistura de elementos reforça uma característica central de Gorillaz: a capacidade de dialogar com o presente sem perder sua identidade.
Uma banda que ainda evolui
Após mais de 25 anos, Gorillaz continua em movimento. O projeto não se apoia apenas no passado ou na nostalgia, mas busca constantemente novas direções.
Essa disposição para mudar talvez seja o principal motivo de sua longevidade. Enquanto muitos artistas se repetem, Gorillaz segue explorando — tanto musical quanto conceitualmente.
No fim, a pergunta não é se a banda ainda tem algo a dizer. É o quanto ela ainda pode surpreender.
[Fonte: El País]