O turismo internacional mostrou uma resiliência surpreendente nos últimos anos. Após o colapso provocado pela pandemia, o setor voltou a crescer e, em 2025, superou até mesmo os níveis anteriores à crise sanitária. Segundo a ONU Turismo, mais de 1,5 bilhão de viagens internacionais foram registradas no último ano.
Mas a pergunta já não é mais se os conflitos globais afetam o turismo — e sim como eles estão transformando o mapa das viagens. A guerra no Irã é um exemplo claro de como a geopolítica não interrompe o turismo, mas o redireciona.
O turismo cresce, mas de forma desigual

Durante décadas, crises geopolíticas costumavam provocar quedas imediatas no turismo. Menos segurança significava menos viagens. Hoje, o cenário é diferente.
Mesmo com conflitos simultâneos em várias regiões do mundo, o fluxo de turistas continua aumentando. No entanto, esse crescimento não é uniforme. Os viajantes estão mudando seus destinos, priorizando lugares que oferecem maior sensação de segurança e previsibilidade.
A região do Golfo ilustra bem essa transformação. Nos últimos anos, países como Emirados Árabes Unidos e Catar investiram bilhões para se consolidar como centros turísticos e grandes hubs de conexão entre Europa, Ásia e África.
Antes da escalada da guerra no Irã, essa estratégia parecia consolidada. Dubai chegou perto de receber 20 milhões de turistas em 2025, enquanto Doha foi escolhida como capital do turismo do Golfo em 2026. Mas esse avanço depende diretamente de estabilidade — algo que o conflito colocou em risco.
Quem ganha e quem perde com a instabilidade
No turismo, a percepção de risco pesa quase tanto quanto o risco real. Um destino pode estar fora de uma zona de conflito, mas, se for associado a instabilidade, tende a perder visitantes.
Quando a incerteza aumenta, as pessoas não deixam de viajar — elas apenas mudam seus planos.
Esse movimento já é visível. Parte da demanda que antes se concentrava no Oriente Médio está migrando para destinos considerados mais seguros. As Ilhas Canárias, por exemplo, vêm recebendo mais atenção de grandes operadoras turísticas que reduziram sua atuação na região afetada pelo conflito.
Essas mudanças não têm relação direta com atrações turísticas, cultura ou gastronomia. Elas são guiadas por fatores como estabilidade política, facilidade de acesso, regras de visto e, principalmente, percepção internacional de segurança.
Viajar ficou mais caro e mais complexo

Outro impacto importante da guerra é o custo das viagens. Logo no início dos ataques, em março, aeroportos estratégicos do Oriente Médio — como os de Dubai, Doha e Abu Dhabi — sofreram restrições e interrupções.
Isso é significativo porque a região concentra cerca de 14% do tráfego aéreo internacional em trânsito. Juntos, esses hubs movimentam mais de 500 mil passageiros por dia.
Quando essas rotas são afetadas, o tráfego aéreo precisa ser redirecionado. Isso gera voos mais longos, conexões adicionais e aumento nos custos operacionais.
Nesse cenário, aeroportos alternativos ganham protagonismo. Istambul, por exemplo, pode se beneficiar ao reforçar seu papel como ponto estratégico entre Europa, Ásia e África. Esse reposicionamento impacta não apenas o transporte, mas também o turismo local, já que mais conexões significam mais escalas, hospedagens e consumo.
Além disso, o impacto econômico é direto. O Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTTC) estima perdas diárias de cerca de 510 milhões de dólares relacionadas ao conflito. Parte desse custo inevitavelmente chega ao consumidor.
O comportamento do turista também mudou

Diante da instabilidade, os viajantes estão mais cautelosos. Isso se reflete em novas prioridades na hora de planejar uma viagem.
Reservas com cancelamento flexível se tornaram mais comuns. A contratação de seguros de viagem cresceu, assim como o interesse por destinos mais próximos ou com melhor conectividade aérea.
A relação entre preço e segurança ganhou ainda mais peso. Mesmo destinos atrativos podem ser descartados se parecerem arriscados ou complicados demais.
Esse novo perfil já aparece nos dados. Em 2025, a Allianz registrou aumento de 9% na venda de seguros de viagem, e mais da metade das ocorrências esteve ligada a cancelamentos.
Estabilidade virou diferencial competitivo
Hoje, destinos turísticos não competem apenas por atrações ou infraestrutura. Eles competem por confiança.
Países que conseguem transmitir estabilidade, previsibilidade e boa conectividade saem na frente — mesmo que não sejam os mais baratos ou exóticos.
O caso do Golfo deixa isso claro. Dubai, Doha e Abu Dhabi construíram uma proposta baseada em luxo, inovação e eficiência logística. Mas tudo isso depende de rotas funcionando e de uma imagem sólida de segurança.
Quando esses fatores falham, o impacto vai além da região. O mapa global do turismo se reorganiza.
No cenário atual, o turismo mundial não está em colapso. Ele está se tornando mais fragmentado, mais desigual e muito mais sensível à percepção de risco. E, nesse novo jogo, quem oferece menos incerteza tem mais chances de ganhar.
[ Fonte: The Conversation ]