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Ciência

Remédio comum para TDAH pode não aumentar risco de psicose, sugere estudo com 700 mil pessoas — e traz alívio para pacientes e famílias

Um dos maiores temores sobre o uso de medicamentos para TDAH pode estar perdendo força. Um estudo de grande escala no Reino Unido indica que o metilfenidato — presente em remédios como o Ritalina — não aumenta o risco de psicose, contrariando preocupações antigas da comunidade médica.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Medicamentos para TDAH são amplamente utilizados em todo o mundo, mas sempre vieram acompanhados de dúvidas sobre seus efeitos a longo prazo. Entre os principais receios está a possibilidade de aumentar o risco de transtornos psiquiátricos graves, como a esquizofrenia. Agora, uma nova pesquisa traz evidências robustas que podem mudar essa percepção — e oferecer mais segurança para médicos, pacientes e famílias.

O que diz o novo estudo

O estudo foi conduzido por pesquisadores do Reino Unido e analisou dados de saúde de cerca de 700 mil pessoas nascidas na Finlândia.

Entre elas, aproximadamente 4 mil foram diagnosticadas com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). O objetivo era entender se o uso de metilfenidato — princípio ativo de medicamentos como a Ritalina — aumentava o risco de desenvolver transtornos psicóticos ao longo da vida.

O resultado principal foi claro: não houve evidência de que o uso do medicamento aumente esse risco.

O risco já existe — mas não por causa do remédio

Os pesquisadores confirmaram que pessoas com TDAH têm, em média, maior probabilidade de desenvolver transtornos psicóticos em comparação com a população geral.

No estudo, cerca de 6% dos participantes com TDAH receberam esse tipo de diagnóstico até os 30 anos.

No entanto, esse aumento de risco não está ligado ao uso do metilfenidato, mas sim a fatores associados ao próprio transtorno.

Um experimento “natural”

Como não seria ético realizar testes controlados que privassem crianças de tratamento adequado, os cientistas utilizaram uma abordagem alternativa.

Eles aproveitaram diferenças nas práticas médicas entre regiões da Finlândia. Isso permitiu comparar grupos semelhantes de pacientes — alguns que receberam metilfenidato e outros que não.

Esse tipo de análise, conhecido como “experimento natural”, ajuda a identificar relações de causa e efeito em situações do mundo real.

Um possível efeito protetor

Um dos achados mais interessantes foi que, em alguns casos, o uso precoce do medicamento pode até estar associado a uma leve redução no risco de psicose.

Esse efeito foi observado principalmente em crianças que começaram o tratamento antes dos 13 anos.

Embora os pesquisadores alertem que esse resultado ainda precisa ser confirmado, há hipóteses biológicas que podem explicar o fenômeno, como mudanças no sistema de dopamina do cérebro durante o desenvolvimento.

O que ainda não sabemos

Apesar dos resultados positivos, o estudo tem limitações importantes.

Ele se concentra apenas no metilfenidato, que é o estimulante mais prescrito para TDAH, mas não o único.

Outros medicamentos, como os baseados em anfetaminas (por exemplo, Adderall), ainda precisam ser investigados com o mesmo rigor.

Além disso, não está claro se os efeitos são os mesmos para pessoas que iniciam o tratamento já na vida adulta — um grupo que vem crescendo rapidamente nos últimos anos.

Um alívio, mas com cautela

Para especialistas, o estudo representa uma importante mensagem de tranquilidade.

A ideia de que o tratamento com estimulantes poderia causar psicose sempre foi uma preocupação relevante, especialmente para pais e responsáveis.

Agora, com dados mais robustos, essa hipótese perde força — pelo menos no caso do metilfenidato.

O futuro da pesquisa em TDAH

Os autores pretendem expandir a investigação para outras classes de medicamentos e diferentes faixas etárias.

Enquanto isso, os resultados atuais ajudam a reforçar a segurança de um dos tratamentos mais comuns para TDAH.

No fim das contas, a mensagem principal é clara: o tratamento, quando bem indicado e acompanhado, pode ser mais seguro do que muitos imaginavam.

 

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