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Ciência

IceCube: o telescópio sob o gelo da Antártida que usa a própria Terra para detectar partículas do Universo

Enterrado a mais de 2 quilômetros de profundidade na Antártida, o observatório IceCube utiliza milhares de sensores para detectar neutrinos e investigar alguns dos fenômenos mais extremos do cosmos.
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Tempo de leitura: 4 minutos

No coração da Antártida, escondido entre 1.450 e 2.450 metros abaixo da superfície de gelo, funciona um dos observatórios científicos mais extraordinários do planeta. Diferentemente dos telescópios tradicionais, o IceCube não utiliza espelhos, lentes ou câmeras para observar o Universo. Em vez disso, ele emprega mais de 5 mil sensores de luz para detectar neutrinos, partículas quase impossíveis de capturar, que podem atravessar planetas inteiros sem serem interrompidas.

Graças a essa tecnologia, o observatório consegue estudar eventos cósmicos extremamente energéticos e invisíveis para os telescópios convencionais, inaugurando uma nova forma de explorar o Universo.

Como o IceCube detecta partículas quase invisíveis

Segundo informações publicadas pelo Space Daily, o IceCube é formado por 5.160 módulos ópticos distribuídos ao longo de 86 cabos instalados em um volume de aproximadamente um quilômetro cúbico de gelo, abaixo da Estação Amundsen-Scott, localizada no Polo Sul.

Sua principal missão é detectar neutrinos, partículas elementares que não possuem carga elétrica e praticamente não interagem com a matéria.

Por causa dessa característica, bilhões de neutrinos atravessam continuamente a Terra e nossos próprios corpos sem deixar qualquer vestígio.

Apenas em raríssimos casos um neutrino colide com um átomo presente no gelo antártico.

Quando isso acontece, a colisão produz uma partícula secundária que emite um breve clarão de luz azul, conhecido como radiação Cherenkov.

Na prática, o IceCube não observa diretamente os neutrinos. O observatório registra justamente essa luz emitida pelas partículas produzidas após a colisão, permitindo aos cientistas calcular a direção, a energia e a provável origem do neutrino.

A própria Terra faz parte do telescópio

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© NASA

Uma das características mais interessantes do IceCube é que ele utiliza o próprio planeta como parte do instrumento científico.

Enquanto partículas produzidas na atmosfera, como os múons gerados pelos raios cósmicos, são bloqueadas pela massa da Terra, os neutrinos conseguem atravessar milhares de quilômetros de rocha e gelo praticamente sem sofrer interferência.

Isso significa que muitos dos neutrinos detectados chegam ao observatório depois de atravessar completamente o planeta, alcançando os sensores por baixo.

Essa estratégia permite eliminar grande parte do chamado “ruído de fundo” e identificar com muito mais precisão os sinais provenientes de fenômenos cósmicos.

O gelo da Antártida é essencial para o funcionamento

O gelo antártico desempenha um papel fundamental no sucesso do observatório.

Além de servir como meio onde ocorrem as raras colisões entre neutrinos e átomos, ele apresenta transparência suficiente para permitir que a luz azul gerada nesses eventos percorra longas distâncias até alcançar os sensores.

Mesmo assim, os pesquisadores precisam estudar cuidadosamente a composição do gelo.

Camadas contendo poeira e outras impurezas podem alterar o caminho percorrido pela luz, afetando a reconstrução precisa das trajetórias das partículas.

Por esse motivo, conhecer detalhadamente a estrutura do gelo é parte essencial das pesquisas realizadas no IceCube.

Construção exigiu uma grande operação na Antártida

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© Imagem gerada por inteligência artificial – Gizmodo BR

A instalação do observatório foi um enorme desafio de engenharia.

Entre 2004 e 2010, equipes perfuraram 86 poços utilizando água quente para derreter o gelo até aproximadamente 2.450 metros de profundidade.

Após a perfuração, os cabos equipados com sensores ópticos foram inseridos nos poços.

Em seguida, a água voltou a congelar naturalmente, aprisionando permanentemente os módulos dentro da camada de gelo.

Embora os sensores permaneçam inacessíveis fisicamente, eles continuam operando normalmente e ainda podem receber atualizações de software enviadas da superfície.

IceCube já fez descobertas importantes sobre o Universo

Desde que entrou em operação, o observatório produziu resultados que ajudaram a consolidar a astronomia de neutrinos.

Em 2013, o IceCube confirmou pela primeira vez a existência de uma população de neutrinos de altíssima energia originados fora do Sistema Solar.

Quatro anos depois, em 2017, os cientistas detectaram um neutrino cuja trajetória foi associada ao blazar TXS 0506+056, fornecendo uma das primeiras evidências da origem extragaláctica dessas partículas.

Em 2022, o observatório encontrou fortes indícios de emissões provenientes da galáxia ativa NGC 1068.

Já em 2023, o IceCube alcançou outro marco histórico ao produzir a primeira imagem da Via Láctea construída a partir de neutrinos de alta energia, oferecendo uma nova perspectiva sobre nossa galáxia.

Embora muitos neutrinos ainda não possam ser associados com precisão às suas fontes de origem, o IceCube demonstra que um enorme bloco de gelo na Antártida pode funcionar como um observatório único, capaz de investigar alguns dos eventos mais violentos e energéticos do Universo por meio de partículas que atravessam a própria Terra antes de revelar sua presença.

 

[ Fonte: Clarín ]

 

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