O esmalte dentário é a estrutura mais resistente do corpo humano, mas possui uma característica frustrante: quando sofre desgaste, não consegue se regenerar naturalmente. Durante décadas, a odontologia concentrou esforços em proteger ou restaurar essas áreas danificadas sem realmente reconstruí-las. Agora, uma nova tecnologia desenvolvida por cientistas britânicos pode abrir caminho para tratamentos capazes de recuperar parte desse tecido utilizando um recurso que todos carregamos na boca.
Cientistas criam gel que estimula a formação de um novo esmalte

Pesquisadores da Universidade de Nottingham desenvolveram um gel experimental capaz de reconstruir camadas finas de esmalte dentário aproveitando minerais presentes na própria saliva.
A proposta busca reproduzir o processo biológico que ocorre durante a infância, quando o esmalte dos dentes ainda está sendo formado naturalmente. Diferentemente dos materiais restauradores tradicionais, o novo composto não atua apenas como uma cobertura artificial, mas estimula a formação organizada de novos cristais minerais.
Apesar do entusiasmo gerado pela descoberta, os cientistas ressaltam que a tecnologia ainda não está disponível em consultórios odontológicos. Os resultados divulgados até agora foram obtidos em experimentos realizados com molares humanos extraídos em laboratório.
Mesmo assim, os testes mostraram que o material conseguiu reconstruir pequenas camadas de esmalte, recuperando propriedades importantes como dureza, resistência ao desgaste e aderência ao tecido dentário original.
Caso os estudos clínicos confirmem sua eficácia em pessoas, a tecnologia poderá representar uma alternativa menos invasiva para tratar desgastes iniciais dos dentes e reduzir a sensibilidade dentária.
A própria saliva fornece os minerais necessários para o processo

O funcionamento do gel é um dos aspectos que mais chamaram a atenção dos pesquisadores.
Sua fórmula contém proteínas sintéticas desenvolvidas para imitar aquelas responsáveis pela organização do esmalte durante o desenvolvimento dos dentes.
Na prática, o dentista aplicaria o produto diretamente sobre a superfície do dente por meio de um procedimento semelhante ao uso de um verniz odontológico.
Depois da aplicação, o gel penetra em pequenas fissuras existentes no esmalte e funciona como uma estrutura de orientação para atrair cálcio e fosfato naturalmente presentes na saliva.
Esses minerais passam então a formar novos cristais alinhados com a estrutura original do dente, em vez de criar uma camada desorganizada e separada da superfície.
Nos experimentos realizados pela equipe, a matriz conseguiu produzir camadas mineralizadas de aproximadamente 10 micrômetros tanto sobre regiões de esmalte desgastado quanto sobre áreas de dentina exposta.
A dentina é a camada localizada logo abaixo do esmalte e sua exposição costuma provocar sensibilidade intensa ao consumir alimentos frios, quentes, doces ou ácidos.
Testes indicam boa resistência, mas o tratamento ainda precisa de validação
Após reconstruir o tecido, os pesquisadores submeteram o material a diversas simulações que reproduziam situações do cotidiano.
Os testes incluíram escovação, mastigação, atrito entre os dentes e contato repetido com substâncias ácidas semelhantes às encontradas na alimentação.
Segundo os resultados obtidos em laboratório, o esmalte reconstruído manteve características mecânicas bastante próximas às observadas em dentes saudáveis, demonstrando resistência ao desgaste e estabilidade estrutural.
Os cientistas acreditam que, no futuro, a tecnologia poderá ser utilizada para tratar pequenas erosões, fortalecer superfícies fragilizadas, aliviar a sensibilidade dentária e melhorar a fixação de restaurações e obturações.
Entretanto, ainda será necessário comprovar sua segurança e durabilidade em condições reais de uso. Dentro da boca, fatores como bactérias, alterações constantes de acidez, alimentação, saliva e desgaste diário tornam o ambiente muito mais complexo do que o laboratório.
Para acelerar esse processo, os responsáveis pelo projeto criaram a empresa Mintech-Bio, que pretende transformar a pesquisa em um tratamento comercial. Até o momento, porém, não existe um produto aprovado para uso clínico.
Por isso, embora os resultados sejam considerados bastante promissores, o novo gel ainda não substitui os tratamentos odontológicos convencionais nem é capaz de reconstruir perdas extensas de esmalte dentário.
[Fonte: La Razón]