As ondas gigantes que costumamos associar aos oceanos também podem ocorrer em rios — e com uma força devastadora. Uma nova pesquisa da NASA e da Universidade Virginia Tech revelou, por meio de satélites de alta tecnologia, que rios norte-americanos podem gerar “tsunamis fluviais” que percorrem centenas de quilômetros e colocam populações e infraestruturas em risco. Entenda como essas ondas se formam e por que esse monitoramento pode salvar vidas.
O que são as ondas de cheia
Diferente das ondas oceânicas, que surgem com a ação do vento e das marés, as chamadas ondas de cheia são provocadas por chuvas intensas ou derretimento de neve. Elas representam uma elevação repentina no nível da água dos rios e podem avançar rapidamente, carregando consigo sedimentos, nutrientes, organismos e, em casos extremos, destruição.
Essas ondas fluviais têm papel ecológico relevante, mas também podem ser perigosas para comunidades ribeirinhas e estruturas de engenharia. Por isso, entender sua dinâmica — altura, velocidade e extensão — é fundamental para a segurança pública e a gestão hídrica.
Satélite SWOT: um novo olhar sobre os rios
A pesquisa utilizou dados do satélite SWOT (Surface Water and Ocean Topography), uma colaboração entre a NASA e a agência espacial francesa CNES. Com tecnologia de micro-ondas, o SWOT consegue medir a altura de corpos d’água com extrema precisão, fornecendo uma visão detalhada do comportamento dos rios.
Segundo Nadya Vinogradova Shiffer, cientista do programa SWOT na NASA, o satélite vai além de monitorar lagos e rios — ele também revela os efeitos do movimento da água ao longo do tempo. Esses dados, até então inacessíveis em grande escala, permitem mapear fenômenos hidrológicos com clareza inédita.
Três eventos impressionantes
A pesquisadora Hana Thurman, da Universidade Virginia Tech, encontrou três exemplos marcantes de ondas de cheia nos dados do SWOT:
Montana (abril de 2023): no rio Yellowstone, uma onda de 2,8 metros de altura se formou após o colapso de uma barragem de gelo. A crista da onda percorreu 11 km antes de seguir em direção ao rio Missouri, em Dakota do Norte.
Texas (janeiro de 2024): no rio Colorado, uma onda de 9 metros percorreu 267 km, avançando a 1,07 m/s por mais de 400 km. Foi o evento mais dramático identificado.
Geórgia (março de 2024): no rio Ocmulgee, uma onda de 6 metros percorreu mais de 165 km, deslocando-se a 0,33 m/s por cerca de 200 km.
Nos dois últimos casos, as fortes chuvas foram a provável causa do fenômeno.
A importância da tecnologia espacial
Embora sensores de nível (stream gauges) sejam usados tradicionalmente para medir o comportamento dos rios, eles têm cobertura limitada. O SWOT, ao contrário, oferece uma visão panorâmica — como um helicóptero que fotografa o tráfego em vez de depender de pedágios fixos. Isso permite preencher lacunas e aprimorar os sistemas de alerta contra enchentes.
Para George Allen, hidrólogo e coautor do estudo, a tecnologia satelital é um avanço essencial para prever e responder a desastres fluviais. Já o pesquisador Cedric David, do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA, resume: “Durante muito tempo, apenas observamos das margens dos rios. Agora, finalmente conseguimos enxergá-los de verdade.”