Muitos adultos lembram com nostalgia de um grupo de amigos de infância que atravessou décadas. Para outros, esse cenário nunca existiu — seja por isolamento, por mudanças familiares ou porque sempre preferiram relações mais individuais. Mas será que crescer sem um círculo fechado de amigos na infância determina uma vida adulta com menos laços sociais? A psicologia sugere que não, embora o impacto dependa do contexto e da forma como se constroem vínculos ao longo da vida.
O papel dos amigos na infância

De acordo com a psicóloga Belén de Pano, da clínica Sensateca Psicología, o grupo de amigos na infância funciona como um “segundo núcleo de desenvolvimento”, depois da família. É ali que a criança aprende habilidades sociais básicas, como dividir, cooperar, negociar e se posicionar.
A ausência dessa experiência pode gerar insegurança no futuro. De Pano cita pacientes que, por não terem cultivado amizades duradouras na infância, chegam à vida adulta com dificuldade até em situações cotidianas, como se apresentar, pedir a palavra ou agradecer.
Impacto na saúde mental
Um estudo internacional publicado em 2024 na Frontiers in Developmental Psychology reforça a preocupação: crianças e adolescentes que crescem isolados socialmente têm mais chances de desenvolver ansiedade, depressão e dificuldades para formar relações satisfatórias na vida adulta.
Segundo De Pano, isso acontece porque a autoestima infantil se constrói também pelo olhar dos outros. Quando esse olhar não existe, surgem sentimentos de vazio e menor valor pessoal. “Cada caso é único. Alguns desenvolvem fobia social; outros apenas bloqueios específicos, que podem ser superados com tempo e terapia”, explica.
Nem todo vínculo precisa ser “para sempre”
Ter um grupo fixo na infância não é o único caminho. Tania, de 26 anos, sempre fez amizades, mas nunca manteve um círculo fechado. “Convidava a turma toda para meu aniversário, mas me relacionava de forma mais solta. Na adolescência senti falta de um grupo, mas logo percebi que estava bem assim”, conta.
Para ela, amizades individuais — antigas ou recentes — sempre foram suficientes para evitar a solidão. “Nunca tive um grupo de toda a vida, mas tenho amigos de longa data e outros mais novos que me fazem sentir em casa.”
A vida adulta como novo terreno social
Também há quem tenha perdido o grupo de infância por mudanças de vida. Carlos, hoje aposentado, lembra com carinho dos amigos de bairro, mas sua rede atual surgiu apenas na vida adulta. “Um dos meus melhores amigos conheci depois dos 55 anos. Parece que o conheço desde sempre”, relata.
O caso mostra que os laços sociais podem se renovar em qualquer fase, independentemente da infância.
O perigo dos vínculos tóxicos
Mais importante do que a época em que se formam as amizades é a qualidade delas. Para De Pano, vínculos tóxicos podem ser tão prejudiciais quanto a ausência deles. “Não adianta ter amigos se não sabemos dizer não ou se o grupo nos prende em relações negativas”, alerta.
Trabalhar a assertividade, aprender a impor limites e reforçar a autoestima são, segundo a psicóloga, passos fundamentais para evitar que amizades se tornem fontes de sofrimento.
Como reconstruir vínculos
Para quem teve experiências negativas, o processo de retomada deve ser gradual. A psicóloga propõe uma espécie de escala: começar por interações simples, como cumprimentar um atendente, e avançar até situações mais desafiadoras, como frequentar eventos sociais. O objetivo é criar confiança passo a passo.
No fim, não importa tanto se os amigos vêm da infância ou da fase adulta. O que pesa é que esses vínculos sejam saudáveis, recíprocos e capazes de oferecer apoio.
Não ter um grupo de amigos na infância não condena ninguém a uma vida adulta solitária. A ciência mostra que o essencial é a qualidade dos vínculos, e não o momento em que surgem. Amizades saudáveis podem ser formadas em qualquer fase — e até compensar ausências do passado.
[ Fonte: El País ]