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Tecnologia

Inteligência artificial pode redefinir o futuro da América Latina — mas o maior desafio não é tecnológico

A América Latina vive um momento decisivo. Enquanto o uso de inteligência artificial cresce rapidamente na região, um novo relatório da CEPAL revela um cenário de contrastes: potencial enorme de transformação, mas também riscos de ampliar desigualdades se a adoção não vier acompanhada de estratégia, investimento e governança.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A inteligência artificial deixou de ser uma promessa distante e passou a integrar o cotidiano de empresas, governos e pessoas. Na América Latina, esse avanço acontece em um contexto marcado por desigualdades estruturais, crescimento econômico limitado e desafios institucionais.

Segundo o Índice Latino-Americano de Inteligência Artificial (ILIA) 2025, elaborado pela CEPAL, a IA pode ser uma ferramenta decisiva para mudar esse cenário. Mas isso depende menos da tecnologia em si — e mais de como ela será implementada.

Uma região em diferentes velocidades

America Latina Ia
© Central and South America Light Blue Digital Point Grid Map on Black for Cyber Infrastructure – IA

O estudo analisou 19 países da América Latina e do Caribe e revelou um panorama desigual.

Chile, Brasil e Uruguai aparecem como líderes regionais, com maior desenvolvimento em infraestrutura digital, pesquisa e políticas públicas voltadas à IA. Já países como Argentina, Colômbia, México e Costa Rica estão em estágio intermediário, avançando na adoção e reduzindo a distância para os líderes.

Por outro lado, uma parte significativa da região ainda está nos estágios iniciais, com pouca capacidade de desenvolver ou implementar soluções em larga escala.

Essa heterogeneidade mostra que a IA pode tanto reduzir quanto ampliar desigualdades — dependendo das decisões tomadas agora.

Uso alto, investimento baixo

Um dos dados mais reveladores do relatório é o contraste entre uso e investimento.

A América Latina já representa 14% das visitas globais a ferramentas de IA, superando sua participação no total de usuários de internet. Ou seja: a população está adotando rapidamente essas tecnologias.

Mas, ao mesmo tempo, a região responde por apenas 1,12% do investimento global em inteligência artificial.

Esse desequilíbrio cria um problema estrutural. Países usam a tecnologia, mas não participam de sua criação — o que limita ganhos de produtividade e autonomia tecnológica.

Mesmo no Brasil, um dos líderes regionais, apenas cerca de 13% das empresas utilizam IA de forma efetiva.

O principal desafio: transformar uso em produtividade

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© https://x.com/VietNewsGateway

O grande desafio não é mais acessar a tecnologia, mas incorporá-la aos processos produtivos.

Em economias mais avançadas, a IA já está integrada a operações críticas: análise de dados, automação industrial, desenvolvimento de produtos e tomada de decisão.

Na América Latina, essa integração ainda é limitada.

Sem isso, a IA tende a gerar ganhos pontuais — mas não uma transformação estrutural da economia.

Onde estão as oportunidades reais

Apesar das dificuldades, a região possui vantagens estratégicas importantes.

Uma delas é a matriz energética. Países como Brasil, Chile e Costa Rica têm forte presença de energias renováveis, o que pode atrair investimentos em centros de dados — infraestrutura essencial para o desenvolvimento de IA.

Além disso, a biodiversidade da região abre caminhos únicos. Dados ambientais da Amazônia, dos Andes e do Caribe podem impulsionar aplicações em áreas como agricultura, saúde e combate às mudanças climáticas.

Outro ponto forte é o capital humano. Países como Argentina, Brasil e México possuem talentos qualificados e polos de inovação capazes de desenvolver soluções competitivas globalmente.

IA já impacta governos e serviços públicos

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© Pexels

O uso da inteligência artificial não está restrito ao setor privado.

Governos da região já utilizam IA para melhorar serviços públicos, especialmente em áreas como saúde e educação. Também há avanços no uso de ferramentas digitais em processos legislativos e consultas públicas.

Essas iniciativas mostram que a tecnologia pode fortalecer a governança — desde que seja acompanhada por regras claras e transparência.

O que dizem os empreendedores

Empresários da região veem a IA como uma tecnologia transversal, capaz de impactar praticamente todos os setores.

Startups latino-americanas já estão incorporando inteligência artificial em produtos e operações, apostando na qualidade do talento local.

Para investidores, o desafio não é geográfico, mas estratégico: identificar quais aplicações de IA têm potencial de gerar valor sustentável — e quais são apenas tendências passageiras.

O risco de repetir erros do passado

A história econômica da América Latina é marcada por ciclos de oportunidade não aproveitados plenamente.

Com a inteligência artificial, o risco é semelhante. Sem políticas públicas consistentes, investimento em pesquisa e integração produtiva, a região pode se tornar apenas consumidora de tecnologia desenvolvida em outros lugares.

Uma janela que não ficará aberta para sempre

O ILIA 2025 deixa claro: a América Latina ainda tem tempo para mudar sua trajetória.

A combinação de políticas de digitalização, desenvolvimento produtivo e formação de talentos pode transformar a IA em um motor de crescimento inclusivo.

Mas essa janela é limitada.

Mais do que adotar tecnologia, a região precisa decidir qual papel quer ocupar no futuro digital: protagonista ou espectadora.

 

[ Fonte: CNN ]

 

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