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Ciência

Islândia simula o colapso de uma corrente oceânica que ajuda a aquecer o país

Governo reúne autoridades para avaliar vulnerabilidades e ensaiar respostas caso a circulação do Atlântico enfraqueça drasticamente.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Autoridades de diferentes setores do governo islandês se reuniram em outubro para um exercício de segurança nacional. O cenário não envolvia um ataque cibernético à infraestrutura do país nem a entrada de um submarino estrangeiro em suas águas. A ameaça vinha do próprio oceano: uma possível interrupção do sistema de correntes que transporta calor para o Atlântico Norte.

O encontro ocorreu em 15 de outubro, sob organização do Ministério do Meio Ambiente, Energia e Clima. O objetivo foi preparar o país para as consequências de um enfraquecimento acentuado ou eventual colapso da Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico, conhecida pela sigla AMOC.

A circulação que redistribui calor pelo Atlântico

A AMOC funciona como um grande sistema de transporte oceânico. Águas quentes das camadas superiores seguem para o norte. Ao perder calor e aumentar sua densidade, parte dessa água afunda e retorna para o sul em profundidade.

Esse ciclo depende de diferenças de temperatura e salinidade e ajuda a redistribuir calor pelo planeta. O aquecimento global, porém, ameaça alterar seu funcionamento.

Algumas simulações mostram consequências extremas caso essa circulação entre em colapso. A perda do calor transportado para o norte poderia provocar um resfriamento profundo em partes da Europa, mesmo em um mundo mais quente.

Em determinados cenários estudados, regiões da Escandinávia poderiam enfrentar extremos de inverno próximos de −50 °C. Esses valores representam resultados de modelos específicos, e não uma previsão de temperatura para os próximos anos.

Os efeitos também ultrapassariam o norte europeu. Uma reorganização da circulação poderia alterar a distribuição das chuvas, enfraquecer as monções na África Ocidental e na Índia e ampliar o risco de secas em regiões de latitudes mais baixas.

Preparar o país antes de uma emergência

Para o ministro islandês do Meio Ambiente, Energia e Clima, Jóhann Páll Jóhannsson, os riscos climáticos exigem uma preparação semelhante à adotada diante de erupções vulcânicas e epidemias.

Em um comunicado sobre o exercício, ele afirmou que identificar ameaças e preparar a sociedade estão entre as principais funções do governo.

Segundo Jóhannsson, examinar cenários, mapear vulnerabilidades e praticar respostas permite compreender melhor a situação do país e identificar o que precisa de reforço com mais urgência.

A simulação não significa que as autoridades saibam quando um colapso ocorrerá. Ela procura antecipar as consequências de um evento incerto, mas potencialmente grave.

Quase nenhum plano nacional considera esse risco

Apesar da dimensão dos possíveis impactos, a AMOC permanece ausente da maioria dos planos nacionais de adaptação climática.

Segundo os pesquisadores Jim Hall e Brenden Jongman, da Universidade de Oxford, apenas dois dos 91 países que haviam apresentado esses documentos à convenção climática das Nações Unidas mencionavam o sistema de correntes.

Um deles é o Brasil. Seu plano de adaptação dedica um quadro ao risco de que a interrupção da AMOC desloque para o sul a faixa de chuvas do Atlântico, aumentando a pressão sobre a Amazônia e o risco de colapso da floresta.

O outro é a Irlanda, cujo clima relativamente ameno depende da influência do Atlântico. O documento irlandês reconhece que confiar apenas na adaptação pode ser insuficiente diante de transformações dessa magnitude.

Mesmo com os exercícios de segurança, a Islândia ainda não havia apresentado seu próprio plano à ONU, conforme o levantamento citado pelos pesquisadores em artigo no The Conversation.

O Atlântico já passou por mudanças abruptas

Alterações profundas nessa circulação não seriam inéditas na história do planeta. Um estudo publicado em 2004 apontou uma interrupção quase total ou completa iniciada há aproximadamente 17.500 anos.

Outro enfraquecimento abrupto ocorreu por volta de 12.700 anos atrás, durante o período conhecido como Dryas Recente.

Esses registros ajudam a compreender o comportamento do sistema, mas não tornam uma nova ruptura menos preocupante. Hoje, mudanças rápidas nas chuvas e nas temperaturas atingiriam sociedades dependentes de redes complexas de produção de alimentos, abastecimento de água e transporte.

Em sua análise publicada na Nature Sustainability, Hall e Jongman destacam que os desastres climáticos já empurram cerca de 26 milhões de pessoas para a pobreza a cada ano.

Segurança alimentar e infraestrutura entram no planejamento

Na Islândia, a preparação inclui avaliar ameaças ao abastecimento de alimentos, à infraestrutura e ao transporte internacional. Esses temas já apareceram em exercícios anteriores, segundo uma reportagem da Reuters.

Em 2025, Jóhannsson afirmou à agência que era a primeira vez que um fenômeno climático específico chegava formalmente ao Conselho de Segurança Nacional como uma possível ameaça existencial.

O exercício de outubro foi o quarto de uma série realizada em colaboração com a Climate Action Unit, da University College London, e o Global Systems Institute, da Universidade de Exeter. Para o governo islandês, estudar o cenário agora é uma forma de identificar fragilidades antes que uma eventual mudança no oceano se transforme em uma emergência em terra.

 

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