No início do século XX, a aldeia de Nagyrev, na Hungria, guardava um segredo sombrio que só seria revelado anos depois. Entre 1911 e 1929, dezenas de homens morreram envenenados em circunstâncias misteriosas, até que uma investigação revelou a chocante participação de mulheres locais em uma trama de vingança, abusos e sobrevivência. O julgamento causou impacto mundial e ainda hoje levanta dúvidas sobre suas verdadeiras motivações.
A origem de um segredo mortal

Tudo começou em 1911, quando Zsuzsanna Fazekas, uma parteira sem marido conhecido, chegou a Nagyrev. Além de realizar partos, era respeitada por seus conhecimentos em remédios e produtos químicos. Em uma comunidade sem médicos ou padres, ela rapidamente ganhou a confiança das mulheres.
Aos poucos, foi se tornando confidente de histórias marcadas por casamentos arranjados, violência doméstica, abusos e ausência de alternativas legais, já que o divórcio não era permitido. Nesse contexto, ela passou a realizar abortos clandestinos e, segundo testemunhos posteriores, ofereceu às mulheres uma saída radical para lidar com maridos violentos: o veneno.
As mortes que se multiplicavam
O primeiro envenenamento registrado data do mesmo ano da chegada de Fazekas. Nos anos seguintes, o número de mortes cresceu de forma alarmante, sobretudo durante a Primeira Guerra Mundial, quando os homens iam para o front e voltavam em condições ainda mais duras.
Entre 1911 e 1929, estima-se que entre 45 e 50 maridos e pais tenham sido mortos em Nagyrev. O cemitério local começou a lotar rapidamente, chamando a atenção da polícia. O apelido que corria pela região dizia muito: “o distrito dos assassinos”.
A descoberta do veneno
Em 1929, autoridades começaram a exumar corpos e encontraram arsênico em vários deles. A pista levou inevitavelmente a Fazekas, acusada de ter ensinado outras mulheres a preparar misturas letais em sua própria casa.
Quando os policiais foram buscá-la, em julho daquele ano, a parteira tomou o mesmo veneno que distribuíra, pondo fim à própria vida antes de ser julgada. Sua morte, no entanto, não encerrou a investigação, que revelou a dimensão do escândalo.
O julgamento das mulheres de Nagyrev
Na capital do condado de Szolnok, 26 mulheres foram levadas a julgamento. Oito acabaram condenadas à morte e outras receberam longas penas de prisão, algumas perpétuas. A maioria negava os crimes, mas as evidências eram incontestáveis.
Os motivos, no entanto, nunca foram totalmente esclarecidos. Historiadores sugerem uma combinação de fatores: pobreza, busca por heranças, violência doméstica e até a perda da liberdade que algumas mulheres experimentaram ao viver relações extraconjugais durante a guerra.
Teorias, segredos e ecos no tempo
Estudos posteriores reforçaram as contradições do caso. Alguns registros apontam que a prática de envenenar maridos já ocorria na região muito antes de 1911. Há indícios de que aldeias vizinhas, como Tiszakurt, também tiveram mortes suspeitas por arsênico, o que poderia elevar o número de vítimas para até 300.
Segundo testemunhos, após os crimes, o comportamento dos homens em relação às esposas mudou de forma notável, como se o medo tivesse imposto limites à violência.
Um mistério que resiste
Mais de um século depois, o episódio de Nagyrev ainda fascina e assusta. Seria a história de mulheres oprimidas que encontraram uma forma brutal de se libertar? Ou de uma conspiração movida por ganância e vingança?
O certo é que o caso continua sendo lembrado como um dos maiores assassinatos em massa cometidos por mulheres na história moderna, um capítulo obscuro em que realidade, mito e silêncio se entrelaçam, desafiando até hoje a compreensão plena de seus motivos.
[Fonte: Correio Braziliense]