Passar várias horas do dia sem comer tornou-se uma estratégia alimentar extremamente popular. Protocolos como o 16/8, no qual a alimentação fica concentrada em uma janela de oito horas, são estudados por seus possíveis efeitos sobre peso, glicemia e metabolismo.
Mas nosso organismo não responde ao jejum da mesma maneira em todos os tecidos.
Uma pesquisa liderada por cientistas da Universidade Westlake, na China, descobriu que períodos prolongados sem alimentação podem prejudicar células-tronco responsáveis pela regeneração dos folículos capilares.
O efeito foi dramático em camundongos e muito mais discreto em humanos. Ainda assim, os resultados sugerem que o jejum intermitente pode ter uma consequência até então pouco conhecida: fazer o cabelo crescer mais lentamente.
O problema começa nas células-tronco do folículo

O cabelo passa continuamente por diferentes fases de crescimento, regressão e repouso. Para iniciar um novo ciclo, células-tronco presentes nos folículos precisam ser ativadas.
Foi justamente esse mecanismo que os pesquisadores decidiram investigar.
No estudo publicado na revista científica Cell, os cientistas submeteram camundongos a dois protocolos populares de jejum intermitente.
Um grupo seguiu alimentação com tempo restrito, com oito horas para comer e 16 horas de jejum. Outro alternava um dia de alimentação normal com 24 horas sem comida.
Os animais que podiam comer livremente recuperaram grande parte dos pelos raspados aproximadamente 30 dias depois.
Nos grupos submetidos ao jejum, entretanto, a regeneração foi significativamente mais lenta. Mesmo após 96 dias, parte dos animais ainda não havia recuperado completamente os pelos.
A gordura liberada durante o jejum parece ser a chave
Inicialmente, poderia parecer que o problema era simplesmente falta de calorias.
Os experimentos mostraram algo diferente.
Durante períodos prolongados sem comida, o organismo começa a mobilizar suas reservas de gordura. Os adipócitos presentes na pele liberam ácidos graxos livres, que passam a ser utilizados como fonte de energia.
Isso normalmente é uma adaptação útil.
Para determinadas células-tronco do folículo capilar, porém, essa mudança metabólica produziu consequências inesperadas.
Segundo os pesquisadores, essas células possuem capacidade antioxidante relativamente limitada. Quando passaram a utilizar maiores quantidades de ácidos graxos, houve aumento das espécies reativas de oxigênio.
O resultado foi estresse oxidativo e morte celular.
Os dados experimentais do estudo também estão disponíveis no National Center for Biotechnology Information (NCBI), que descreve como períodos mais longos de jejum produziram efeitos progressivamente mais intensos sobre a regeneração dos folículos.
Em humanos, o cabelo cresceu 18% mais devagar

Resultados em camundongos não significam automaticamente que a mesma coisa aconteça em pessoas.
Por isso, os pesquisadores realizaram também um pequeno ensaio clínico randomizado com 49 adultos jovens.
Os participantes foram divididos entre diferentes estratégias alimentares, incluindo um protocolo de alimentação restrita a seis horas por dia, com 18 horas de jejum.
Os cientistas rasparam uma pequena região do couro cabeludo e acompanharam a velocidade com que os fios voltavam a crescer.
Depois da intervenção, o grupo submetido ao jejum apresentou uma redução média de aproximadamente 18% na velocidade de crescimento do cabelo em comparação com o grupo controle.
Os fios também apresentaram algumas diferenças de comprimento e espessura.
A densidade capilar, porém, não apresentou mudança significativa durante o curto período analisado.
Isso significa que jejum intermitente causa calvície?
Não.
Essa é uma diferença importante entre os resultados científicos e uma interpretação mais alarmista deles.
O estudo mostrou que determinados protocolos de jejum podem desacelerar o crescimento e a regeneração dos cabelos. Não demonstrou que praticar jejum intermitente provoque calvície permanente em humanos.
O experimento com pessoas também foi pequeno, com apenas 49 participantes e duração curta.
Além disso, existem diferenças importantes entre humanos e camundongos. Os roedores possuem metabolismo muito mais rápido e seus folículos respondem de maneira diferente às alterações metabólicas.
O próprio líder da pesquisa, Bing Zhang, explicou em material divulgado pela Cell Press que o objetivo não é afastar as pessoas do jejum intermitente, mas chamar atenção para possíveis efeitos inesperados.
Nos humanos estudados, muitas células-tronco continuaram sobrevivendo e o cabelo continuou crescendo — apenas em uma velocidade menor.
Nem todos os tecidos respondem ao jejum da mesma maneira

Talvez essa seja a descoberta mais interessante da pesquisa.
Costumamos falar dos efeitos do jejum como se todo o organismo respondesse igualmente à ausência de alimentos. Na realidade, diferentes populações de células-tronco possuem necessidades metabólicas diferentes.
Há pesquisas indicando benefícios do jejum em determinados tecidos, enquanto outras apontam atrasos na regeneração em situações específicas.
No caso dos folículos capilares, os pesquisadores sugerem que o organismo pode estar priorizando recursos durante períodos de baixa disponibilidade de nutrientes.
Manter órgãos essenciais funcionando é biologicamente mais importante do que produzir novos fios de cabelo.
Ainda é cedo para abandonar o jejum por causa do cabelo
Os resultados abrem uma nova linha de investigação, mas estão longe de encerrar a discussão.
Será necessário realizar estudos maiores e mais longos em humanos para descobrir se diferentes protocolos produzem o mesmo efeito, se ele desaparece após interromper o jejum e quais pessoas são mais suscetíveis.
Também será preciso determinar se alguém que já apresenta predisposição à queda de cabelo poderia ser afetado de maneira diferente.
Por enquanto, a conclusão é bem menos dramática do que dizer que o jejum intermitente “deixa careca”.
A ciência encontrou evidências de que passar muitas horas sem comer pode alterar o metabolismo das células-tronco dos folículos e desacelerar o crescimento dos fios.
É um efeito inesperado — e um lembrete de que mesmo estratégias alimentares associadas a benefícios podem produzir consequências diferentes dependendo do tecido que estamos observando.