Pular para o conteúdo
Ciência

Por que é tão difícil saber se o jejum intermitente realmente funciona

O jejum intermitente promete emagrecimento, benefícios metabólicos e até proteção contra algumas doenças. Mas descobrir seus verdadeiros efeitos em humanos esbarra em um problema básico: os cientistas raramente sabem exatamente o que as pessoas comem.
Por

Tempo de leitura: 4 minutos

A cada poucos meses surge uma nova pesquisa sobre o jejum intermitente. Alguns estudos apontam benefícios, enquanto outros encontram resultados semelhantes aos de dietas convencionais. Há até trabalhos que levantaram possíveis riscos cardiovasculares. Essa aparente contradição tem uma explicação importante: estudar alimentação em seres humanos é muito mais complicado do que parece.

Em animais, os resultados são impressionantes

O jejum intermitente tenta reproduzir períodos sem alimentação que provavelmente fizeram parte da história evolutiva humana.

Durante o jejum, o organismo deixa de utilizar prioritariamente a glicose e aumenta o uso da gordura como fonte de energia. Essa mudança metabólica também interfere no comportamento das células.

Entre os processos envolvidos está a autofagia, mecanismo pelo qual as células reciclam componentes danificados. Estudos relacionam essas alterações a possíveis benefícios metabólicos e ao envelhecimento saudável.

O problema é que as evidências mais impressionantes vêm principalmente de experimentos com camundongos, moscas e vermes.

Em animais, restringir os horários das refeições pode produzir resultados expressivos mesmo quando a quantidade total de calorias permanece semelhante.

Nos humanos, a história é diferente.

Jejum intermitente funciona para emagrecer?

O lado pouco discutido do jejum intermitente que especialistas querem colocar em evidência
© Pexels

Segundo Krista Varady, professora de nutrição da Universidade de Illinois em Chicago, diferentes modalidades de jejum intermitente costumam produzir uma perda de aproximadamente 5% do peso corporal.

É um resultado relevante, mas semelhante ao obtido com outras estratégias para redução de calorias.

Também podem ocorrer melhorias em indicadores como colesterol, pressão arterial e glicemia. Pessoas que apresentam pior saúde metabólica antes da intervenção tendem a obter benefícios maiores.

Por outro lado, formas mais extremas, como o jejum em dias alternados, podem favorecer a perda de massa corporal magra.

Resultados relacionados à cognição e ao câncer também são menos claros em humanos do que em animais. Alguns experimentos são promissores, mas outros não conseguiram reproduzir mecanismos observados em laboratório.

Um camundongo não é um humano em miniatura

Cientistas Criam Camundongo Usando Um Gene Quase 1 Bilhão De Anos Mais Antigo Que Os Animais — E O Resultado Muda O Que Sabemos Sobre A Evolução
© Ricky Kharawala – Unsplash

Parte da diferença pode ser explicada pela biologia.

Camundongos possuem metabolismo muito mais acelerado. Segundo Courtney Peterson, professora associada de nutrição da Escola de Saúde Pública de Harvard, um jejum de 16 horas em um roedor pode representar metabolicamente algo equivalente a vários dias para uma pessoa.

Além disso, animais utilizados em laboratório costumam ser geneticamente muito semelhantes.

Seres humanos apresentam enorme diversidade genética, metabólica e comportamental. Mas existe outro problema ainda maior: os pesquisadores controlam exatamente aquilo que os animais comem.

Com pessoas, isso raramente acontece.

As pessoas não lembram exatamente o que comeram

Grande parte das pesquisas nutricionais depende de diários alimentares e questionários.

Os participantes recebem orientações e depois seguem suas vidas normalmente. Isso significa que os cientistas precisam confiar no que cada pessoa declara ter consumido.

E nossa memória alimentar é surpreendentemente imprecisa.

Varady estima que apenas cerca de metade dos participantes de seus estudos entrega adequadamente os registros. Alguns esquecem refeições, outros anotam tudo posteriormente e há quem omita alimentos consumidos fora do período permitido.

Uma análise publicada em 2025 sugeriu que aproximadamente 30% das pessoas subestimam aquilo que comem.

A diferença pode chegar a centenas de calorias diariamente.

Como descobrir quantas calorias alguém realmente consome?

Uma das técnicas mais precisas é a chamada água duplamente marcada.

Os participantes ingerem água contendo isótopos estáveis de hidrogênio e oxigênio. Observando como essas substâncias são eliminadas, pesquisadores conseguem estimar o gasto energético com grande precisão.

Em alguns experimentos de Varady, participantes declaravam consumir entre 1.600 e 2.000 calorias por dia. As medições objetivas, porém, indicavam valores próximos de 3.500 calorias.

Isso ajuda a explicar por que estudos nutricionais aparentemente semelhantes podem produzir conclusões tão diferentes.

Tecnologia pode revelar o que realmente comemos

Uma solução seria manter os participantes internados e controlar absolutamente todas as refeições.

Esses experimentos existem e apresentam resultados interessantes. Estudos conduzidos por Peterson encontraram melhorias mais pronunciadas com o jejum intermitente, incluindo redução da glicemia e da pressão arterial, menos estresse oxidativo e aumento da autofagia.

Mas são pesquisas extremamente caras e normalmente envolvem poucas pessoas durante períodos curtos.

Por isso, cientistas procuram alternativas tecnológicas.

Câmeras instaladas em óculos ou colares podem registrar automaticamente refeições. Outros protótipos conseguem detectar movimentos de mastigação. Também existem garfos inteligentes que monitoram o consumo e até sensores instalados nos dentes.

Exames periódicos de sangue e urina podem complementar essas informações por meio de biomarcadores.

A solução provavelmente será combinar diferentes métodos.

O jejum intermitente não é uma solução milagrosa

Jejum1
© FreePik

Para os pesquisadores, futuros estudos também deveriam acompanhar atividade física e sono, fatores rigorosamente controlados em experimentos com animais e capazes de interferir nos resultados metabólicos.

Até que isso aconteça, será difícil determinar com precisão quais benefícios pertencem realmente ao jejum e quais resultam simplesmente de comer menos, melhorar a alimentação ou mudar outros hábitos.

As evidências atuais indicam que o jejum intermitente pode funcionar como estratégia para algumas pessoas, especialmente para perda de peso e melhora de determinados marcadores metabólicos. Mas seus efeitos parecem muito menos extraordinários em humanos do que aqueles observados em animais.

O problema, portanto, não está apenas em descobrir se o jejum funciona. Antes disso, a ciência precisa resolver uma questão surpreendentemente complicada: descobrir o que as pessoas realmente comem.

 

[ Fonte: BBC ]

 

Partilhe este artigo

Artigos relacionados