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Tecnologia

Livros escritos por humanos começam a ganhar selo de “literatura orgânica”

Certificações procuram identificar obras de autoria humana em meio ao avanço da IA, mas levantam dúvidas sobre fiscalização e acusações injustas contra escritores.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Escolher um livro pode passar a envolver uma pergunta que antes parecia desnecessária: quem escreveu aquelas páginas? Com a expansão da inteligência artificial generativa, organizações do setor editorial estão criando selos para identificar obras de autoria humana. A britânica Books By People chama essa proposta de “literatura orgânica”. A iniciativa pretende dar ao leitor uma informação sobre a origem do texto e preservar a confiança entre escritores, editoras e público.

Um selo para mostrar como o livro nasceu

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© The Open Book / Airbnb

A Books By People trabalha com editoras para certificar títulos e aplicar uma marca visível aos leitores. Segundo a organização, a avaliação considera relatos sobre a criação, o histórico do manuscrito e uma análise das características da escrita.

O objetivo é reunir evidências do processo de produção. Rascunhos, revisões e registros ajudam a mostrar como uma obra se desenvolveu, em vez de depender apenas de uma ferramenta que classifica o texto final como humano ou artificial.

A organização afirma que as regras da certificação passaram pela análise e aprovação do Escritório de Propriedade Intelectual do Reino Unido. Isso se refere ao sistema da marca, sem significar que o governo avalia individualmente cada livro.

Os títulos certificados também aparecem em um diretório público. Um identificador e um código QR permitem consultar essas informações. As editoras podem incluir o status da certificação nos dados enviados aos varejistas. 

Autoria humana não exige abandonar toda tecnologia

A discussão fica mais complexa quando entram ferramentas que autores já utilizam para revisar e organizar o trabalho. Um corretor ortográfico com recursos de IA tem uma função diferente de um sistema encarregado de produzir capítulos inteiros.

Nos Estados Unidos, a Authors Guild mantém o selo Human Authored. Suas regras exigem que o texto seja escrito por uma ou mais pessoas, mas permitem uma quantidade mínima de conteúdo gerado ou modificado por IA, como em correções de ortografia e gramática.

Para usar a marca, o autor ou a editora precisa registrar a obra e aceitar os termos da licença. O selo pode aparecer na capa, na descrição do livro em plataformas comerciais ou em materiais promocionais associados ao título.

Esse modelo mostra por que cada certificação precisa definir seus critérios. A expressão “escrito por humanos” depende de regras claras sobre quais usos de ferramentas são aceitos e quais ultrapassam o limite estabelecido.

A fiscalização também pode prejudicar escritores

Livros
© Joel Saget/Colaborador

A reportagem da WIRED destaca uma preocupação: sistemas de detecção podem produzir falsos positivos e colocar a reputação de autores em risco.

Escritores e representantes do setor alertam que transformar toda obra em objeto de suspeita pode gerar uma fiscalização excessiva. Uma acusação de uso indevido de IA tem consequências profissionais, sobretudo quando leitores e editoras tratam a avaliação de um software como prova definitiva.

Esme Dennys, cofundadora da Books By People, afirma que a organização dá maior importância aos documentos do processo criativo. Segundo ela, quando as evidências deixam dúvidas, a decisão favorece o autor.

O debate inclui outra questão: caberia a quem publica conteúdo gerado por IA informar essa origem, em vez de exigir que todo escritor prove sua autoria humana? 

A origem passa a fazer parte da escolha

Essas iniciativas procuram oferecer transparência em um mercado no qual a autoria se tornou mais difícil de verificar. Para parte dos leitores, saber que uma história nasceu da experiência e das decisões de uma pessoa influencia a relação com o livro.

O selo pode ajudar nessa escolha, desde que seus critérios sejam compreensíveis e suas limitações permaneçam claras. A certificação informa sobre o processo de criação; a avaliação literária continua nas mãos de quem lê.

 

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