O primeiro discurso do debate de líderes da Assembleia Geral da ONU começou com um diagnóstico pouco otimista. Diante de representantes de diferentes países, Luiz Inácio Lula da Silva descreveu um mundo pressionado por guerras, disputas de poder e instituições cada vez mais fragilizadas. Mas o presidente brasileiro não ficou apenas nas críticas: ao longo de sua fala, indicou qual instrumento considera indispensável para impedir que as atuais crises avancem ainda mais.
A ONU enfrenta um momento que Lula considera crítico
Como tradicionalmente acontece no debate geral, o Brasil foi o primeiro Estado-membro a ocupar a tribuna. Lula aproveitou a posição para colocar em dúvida a capacidade atual das Nações Unidas de cumprir uma de suas missões fundamentais: impedir que conflitos armados se transformem em tragédias ainda maiores.
Segundo o presidente, o mundo registrou no ano passado o maior número de conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial. Para ele, esse cenário demonstra não apenas o fracasso da política, mas também o enfraquecimento das estruturas internacionais criadas para preservar a paz.
Lula direcionou parte das críticas ao Conselho de Segurança. Na avaliação apresentada pelo presidente, o órgão está paralisado e tem dificuldade para proteger justamente as populações que possuem menos recursos para se defender.
O brasileiro também recuperou um debate antigo. Lembrou que, já em 1946, o país alertava para os problemas que poderiam surgir do poder de veto concedido a alguns integrantes do Conselho de Segurança.
Foi a partir desse diagnóstico que Lula apresentou a ideia central de sua intervenção: em um planeta marcado por confrontos e tensões crescentes, a diplomacia continua sendo, segundo ele, a única alternativa capaz de oferecer soluções duradouras.
De Ormuz ao crime organizado, o discurso mudou de escala

Para demonstrar como conflitos regionais podem produzir consequências globais, Lula mencionou o Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas estratégicas do planeta. Na visão apresentada pelo presidente, uma passagem tão importante para o comércio internacional jamais deveria ter se transformado em uma trincheira de guerra.
Ao mesmo tempo, Lula destacou decisões recentes da Assembleia Geral. Entre elas está uma resolução copatrocinada pelo Brasil que declarou o tráfico transatlântico de pessoas escravizadas como o mais grave crime contra a humanidade. Também mencionou a iniciativa para corrigir a representação do mapa-múndi de forma a refletir melhor as dimensões reais do planeta.
Quando o discurso chegou ao Brasil, segurança e crime organizado ganharam protagonismo.
Lula afirmou que o país reconhece a dimensão do problema representado pelas organizações criminosas e citou as consequências da violência para trabalhadores, famílias e policiais.
Mas estabeleceu um limite claro sobre como pretende enfrentar a questão.
Segundo o presidente, o Brasil não pretende transferir para outros países a responsabilidade de proteger suas fronteiras e sua população. Em uma das referências mais contundentes da fala, afirmou que o país não precisa de porta-aviões estrangeiros vigiando suas águas.
Ciência, inteligência artificial e apostas entraram no alerta
As guerras não foram o único problema internacional mencionado pelo presidente. Lula também dedicou espaço às mudanças climáticas e ao avanço da desinformação.
Segundo ele, mesmo diante das evidências científicas, movimentos que rejeitam consensos estabelecidos continuam dificultando respostas coordenadas para a crise ambiental. O presidente defendeu que crescimento econômico e proteção da natureza não precisam ser objetivos incompatíveis.
A transformação tecnológica apareceu como outro ponto de preocupação.
Lula criticou a dificuldade dos governos em avançar na regulamentação das grandes empresas de tecnologia e chamou atenção para os desafios trazidos pelo rápido desenvolvimento da inteligência artificial.
O presidente também mencionou a expansão das empresas de apostas, as chamadas bets. Segundo sua avaliação, uma indústria bilionária passou a transformar o vício em fonte de lucro, deixando famílias economicamente vulneráveis.
Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU completaram essa parte do discurso. Lula argumentou que as metas estão sob pressão e voltou a defender políticas capazes de reduzir desigualdades, resumindo sua posição na necessidade de incluir os mais pobres nos orçamentos públicos e exigir maior participação dos mais ricos.
O pedido final recuperou uma palavra que marcou a criação da

Depois de apresentar um cenário dominado por conflitos, desinformação, desigualdade e disputas tecnológicas, Lula encerrou sua intervenção retornando às origens das Nações Unidas.
O presidente lembrou que a organização nasceu há oito décadas em um mundo profundamente marcado pela guerra, mas conseguiu participar de transformações importantes ao longo de sua história.
Entre os exemplos citados estão os processos de descolonização, a promoção dos direitos humanos, a proteção de migrantes e refugiados e o combate ao racismo, ao antissemitismo e à intolerância religiosa.
Para Lula, essas conquistas demonstram que a instituição ainda pode recuperar protagonismo.
Seu apelo aos demais chefes de Estado foi para que a ONU volte a produzir algo que, segundo sua avaliação, está cada vez mais escasso no cenário internacional: esperança.
Por trás das diferentes questões apresentadas durante o discurso, uma mensagem atravessou praticamente toda a intervenção. Diante de um mundo com mais armas, conflitos e rivalidades, o presidente brasileiro defendeu que nenhuma dessas ferramentas pode substituir aquilo que considera a principal saída para as crises globais: política, negociação e diplomacia.
[Fonte: ONU News]