Um buraco negro faminto
O evento foi identificado como um núcleo galáctico ativo (AGN) — uma região extremamente brilhante no centro de uma galáxia, alimentada por um buraco negro que devora matéria em ritmo frenético. À medida que gás e poeira giram em torno do buraco negro, eles esquentam a milhões de graus e liberam uma radiação absurda.
Mas o que o “Superman” comeu para brilhar tanto? Segundo o astrônomo Matthew Graham, do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech) e autor principal do estudo publicado na Nature Astronomy, a explicação mais provável é que o buraco negro engoliu uma estrela gigantesca. “Esse tipo de evento ocorre em apenas 1 entre 10 mil AGNs, mas esse é tão extremo que parece único — um caso em um milhão”, afirmou Graham.
Os cientistas estimam que o buraco negro tenha uma massa 500 milhões de vezes maior que a do Sol, e que a estrela devorada tinha pelo menos 30 vezes o tamanho solar — tornando-se provavelmente a maior estrela já observada sendo dilacerada por um buraco negro.
Como o “Superman” foi descoberto

A explosão foi detectada em 2018 pelo Zwicky Transient Facility (ZTF), no Observatório Palomar, na Califórnia. Esse telescópio caça eventos transitórios no céu — fenômenos que aparecem e somem rapidamente, como supernovas e erupções estelares.
Na época, o brilho parecia apenas mais um entre tantos. A equipe chegou a achar que era um blazar, tipo de buraco negro que lança jatos de energia pelo espaço. Mas, ao revisitar os dados anos depois, os astrônomos perceberam que o objeto mudava de brilho de forma constante — e muito mais intensa do que qualquer blazar.
Observações adicionais com telescópios como o W. M. Keck, no Havaí, confirmaram que o “Superman” era algo sem precedentes. Em seu auge, brilhou 30 vezes mais do que qualquer evento já visto desse tipo, superando o recordista anterior, o famoso “Scary Barbie”, observado em 2020.
“É como se o buraco negro ainda tivesse a estrela entalada na garganta”, brincou Graham.
O espetáculo que não termina
Mesmo anos depois, a explosão ainda é visível — o que mostra que o buraco negro continua se alimentando. Mas há um detalhe curioso: o tempo não passa da mesma forma lá.
“Por causa da dilatação do tempo cosmológico, o evento parece acontecer mais devagar para nós”, explica Graham. “Enquanto sete anos se passam na Terra, apenas dois anos se passaram lá. É como assistir a uma explosão em câmera lenta.”
Essa diferença ocorre porque o espaço entre as galáxias está se expandindo, alongando as ondas de luz — e o próprio tempo. Ou seja: o que vemos hoje aconteceu há 10 bilhões de anos, quando o universo ainda estava em sua juventude cósmica.
Uma janela para as entranhas das galáxias
O “Superman” não é apenas um espetáculo visual — ele é uma pista preciosa sobre o que acontece nos centros das galáxias, regiões dominadas por buracos negros colossais e estrelas monstruosas.
A coautora do estudo, K.E. Saavik Ford, do Museu Americano de História Natural, explica: “Isso mostra que há estrelas extremamente massivas orbitando muito perto desses buracos negros. Elas vivem e morrem nesses ambientes violentos, o que pode mudar completamente o que sabemos sobre a formação das galáxias.”
Eventos assim também ajudam os cientistas a entender como os buracos negros crescem e como sua energia afeta tudo ao redor — de nuvens de gás a sistemas estelares inteiros. “Quando um buraco negro supermassivo explode de repente, ele nos dá um ingresso para assistir à física mais extrema do Universo”, comenta Alex Filippenko, da Universidade da Califórnia em Berkeley.
O que vem a seguir
A equipe continua monitorando o brilho do “Superman” com instrumentos cada vez mais potentes — incluindo o Observatório Vera Rubin, no Chile, que deve começar suas operações em breve. A ideia é descobrir se esse tipo de explosão é realmente um evento raro ou se há uma população oculta de estrelas gigantes sendo devoradas por buracos negros.
O astrofísico Danny Milisavljevic, da Universidade Purdue, acredita que estamos diante de algo revolucionário: “Antes achávamos que o ‘Scary Barbie’ era uma anomalia, mas o ‘Superman’ é ainda mais extremo. Ele libera energia equivalente a transformar o Sol inteiro em pura radiação.”
Um lembrete do poder do cosmos
Explosões como essa lembram o quanto o Universo é violento e imprevisível. Mesmo a bilhões de anos-luz de distância, esses eventos ajudam a decifrar a origem e a evolução das galáxias, e mostram que buracos negros são muito mais ativos do que se imaginava.
O “Superman” é, literalmente, um clarão do passado — uma janela aberta para uma época em que o cosmos era jovem e os buracos negros, ainda mais famintos.
[Fonte: CNN Brasil]