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Tecnologia

Mais de 400 aplicativos escondiam ferramentas de IA para criar imagens íntimas falsas

Investigação revela uma rede de aplicativos aparentemente inofensivos que escondia ferramentas para criar imagens sexuais falsas. Esquema ultrapassou 350 mil downloads e expôs falhas de segurança.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Um aplicativo para transformar fotos de animais em personagens divertidos pode parecer completamente inofensivo. Mas uma investigação internacional revelou que centenas de serviços desse tipo escondiam funções muito mais perigosas. Por trás de ferramentas de inteligência artificial para editar fotografias, aprender idiomas ou acompanhar exercícios físicos, existia uma estrutura capaz de produzir imagens íntimas falsas de pessoas reais, sem autorização das vítimas.

Aplicativos comuns escondiam uma rede de deepfakes sexuais

Mais de 400 aplicativos escondiam ferramentas de IA para criar imagens íntimas falsas
© Pexels

Uma investigação publicada pela revista Wired, em 2 de novembro de 2026, identificou mais de 400 aplicativos e domínios associados a uma rede de geração de imagens e vídeos sexualmente explícitos por inteligência artificial.

O esquema utilizava serviços aparentemente legítimos como fachada. Entre os exemplos estava o Viefur, aplicativo que prometia transformar fotografias de animais de estimação em retratos criativos.

Entretanto, pesquisadores descobriram que, sob determinadas condições, essas plataformas apresentavam uma interface oculta. Nela, usuários podiam enviar fotografias de pessoas reais e produzir montagens sexuais falsas, inclusive com representações de violência.

A investigação contou com pesquisadores da organização independente AI Forensics, especializada em analisar riscos e abusos relacionados a plataformas digitais.

O levantamento também encontrou conexões técnicas entre os serviços, indicando uma operação coordenada, e não apenas aplicativos isolados.

Como as ferramentas conseguiam enganar Apple e Google?

O mecanismo utilizado pelos desenvolvedores explorava uma dificuldade importante dos sistemas de fiscalização das lojas de aplicativos.

Durante a análise de segurança, um aplicativo podia apresentar somente suas funcionalidades legítimas. Depois da instalação, entretanto, o programa se comunicava com um servidor remoto, que decidia qual versão da interface seria exibida.

Essa decisão podia considerar informações como idioma, identificadores do dispositivo e origem do acesso.

Assim, alguém que encontrasse o aplicativo normalmente poderia visualizar apenas um editor de fotografias. Já um usuário que chegasse por determinados anúncios poderia acessar ferramentas escondidas de geração de deepfakes.

Segundo a investigação, 27 aplicativos relacionados à rede estavam disponíveis no Google Play em setembro de 2026. Juntos, eles acumulavam mais de 350 mil downloads, apesar de muitos apresentarem classificações indicativas adequadas para todas as idades.

O caso mostra que a aprovação em uma loja oficial não garante, por si só, que todas as funcionalidades de um aplicativo sejam seguras.

Facebook e Instagram ajudaram a divulgar os serviços

A investigação também identificou milhares de anúncios publicados no Facebook e no Instagram que direcionavam usuários para aplicativos associados à rede.

Algumas propagandas utilizavam identidades comerciais falsas para dificultar a identificação dos responsáveis. Os pesquisadores encontraram ainda anúncios com imagens de abuso sexual infantil produzidas por inteligência artificial, um dos aspectos mais graves da operação.

Após receber informações sobre os domínios investigados, a Meta informou ter adotado medidas contra aproximadamente 11,6 mil contas de publicidade, 4,7 mil páginas comerciais e 5,2 mil usuários, além de bloquear 209 aplicativos de anunciar em suas plataformas.

A Apple removeu 19 aplicativos relacionados ao esquema. O Google afirmou ter retirado diversos programas antes mesmo de ser contatado sobre a investigação.

Apesar dessas ações, a Wired constatou que anúncios e serviços semelhantes continuavam aparecendo durante a apuração.

Quem estava por trás da operação?

Os pesquisadores identificaram indícios que ligavam a infraestrutura a desenvolvedores chineses e à empresa KeLing Technology Limited, registrada em Hong Kong.

Entre os elementos encontrados estavam códigos escritos em chinês, servidores compartilhados e configurações que conectavam diferentes aplicativos.

Segundo a investigação, as conexões públicas entre a empresa e os serviços começaram a desaparecer depois que os jornalistas solicitaram esclarecimentos. Isso, porém, não estabelece por si só a responsabilidade jurídica da companhia.

O caso também foi registrado no monitor de incidentes de inteligência artificial da OCDE, que reúne ocorrências envolvendo riscos e danos associados à tecnologia.

O que o caso significa para usuários brasileiros?

A descoberta reforça um problema crescente: a facilidade com que fotografias publicadas na internet podem ser utilizadas para criar conteúdo íntimo falso.

As vítimas não precisam ter produzido ou compartilhado imagens sexuais. Uma fotografia comum pode ser suficiente para alimentar ferramentas capazes de fabricar cenas que nunca aconteceram.

No Brasil, a divulgação de montagens íntimas sem consentimento pode envolver violações de direitos da personalidade e consequências jurídicas, dependendo das circunstâncias.

Para reduzir os riscos, especialistas recomendam desconfiar de aplicativos pouco conhecidos que solicitam acesso a fotografias, verificar a reputação dos desenvolvedores e denunciar conteúdos íntimos falsificados às plataformas.

O principal alerta, entretanto, está na responsabilidade das empresas de tecnologia. A investigação demonstra que retirar aplicativos individualmente pode ser insuficiente quando os responsáveis conseguem reproduzir rapidamente a mesma infraestrutura com outros nomes.

O desafio não é apenas identificar imagens falsas, mas impedir que redes comerciais inteiras continuem lucrando com a exploração digital de pessoas reais.

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