Quando uma moda vira pressão sobre a natureza
O chocolate de Dubai é um bom exemplo de como a internet acelera tendências. Recheado com creme de pistache e fios crocantes de kadaif, o doce virou símbolo de luxo depois de viralizar nas redes sociais. O efeito colateral veio rápido: a demanda global por pistache disparou.
Em 2024, a União Europeia importou cerca de um terço a mais de pistaches do que no ano anterior, ultrapassando pela primeira vez a marca de 100 milhões de euros em importações. O problema é que o cultivo do pistache, apesar de resistente ao calor, exige grandes volumes de irrigação para alcançar os altos rendimentos que o mercado pede.
Pistache: resistente ao calor, dependente de água
Para produzir apenas um quilo de pistache, são necessários mais de 10 mil litros de água. Em regiões secas, isso significa retirar recursos hídricos de aquíferos já pressionados. Na Espanha, maior produtora europeia, a área plantada com pistache quintuplicou desde 2017, substituindo até oliveiras.
Além disso, as mudanças climáticas também ameaçam a cultura: invernos mais quentes dificultam a floração. Sem flores, não há frutos. O pistache, que parecia uma aposta segura, pode se tornar mais um cultivo vulnerável.
Matcha: superalimento, superpressão

O matcha segue caminho parecido. O pó verde, tradicionalmente usado em cerimônias do chá no Japão, virou superalimento global graças ao alto teor de antioxidantes. Cafés, chocolates e bebidas prontas ajudaram a explodir a demanda.
O resultado? Preços quase triplicados no Japão em apenas um ano. Pequenos agricultores, sem estrutura para ampliar a produção, ficam para trás. Quem mais sente o impacto são produtores voltados ao mercado interno e praticantes das cerimônias tradicionais, que já reduzem o consumo por causa dos custos.
O matcha é trabalhoso: as plantas são cultivadas à sombra, colhidas com cuidado e moídas lentamente. Transformar esse processo artesanal em escala global cobra um preço social alto.
Quinoa: quando o “superalimento” sai do prato local
A quinoa talvez seja o caso mais emblemático. Originária dos Andes, ela sempre foi base da alimentação no Peru e na Bolívia. Após ser promovida como superalimento, especialmente a partir de 2013, os preços subiram tanto que muitas comunidades locais passaram a consumir menos o próprio alimento tradicional.
O impacto ambiental também cresceu. Terras inadequadas foram convertidas para o cultivo extensivo, inclusive áreas secas do altiplano boliviano. O solo, frágil e exposto a ventos fortes, sofre erosão rápida após o arado. Quando a produtividade cai, nem a agricultura nem a pecuária conseguem se recuperar facilmente.
O que acontece quando a moda passa?
Especialistas em comércio justo alertam: depender de uma única cultura é um risco econômico e ambiental. Quando a tendência esfria, os preços caem, a demanda some e sobra um solo degradado.
A alternativa passa pela diversificação agrícola. Sistemas que combinam diferentes culturas ajudam a preservar o solo, garantem alimento para as famílias produtoras e reduzem a dependência de modas globais. Não se trata de demonizar o matcha, a quinoa ou o pistache, mas de entender os limites do planeta.
A responsabilidade não é só do produtor
Quem cria, divulga e impulsiona tendências alimentares também tem responsabilidade. Influenciadores, marcas e empresas ajudam a moldar o consumo global — e precisam considerar os impactos de longo prazo.
Antes de abraçar o próximo ingrediente da moda, vale o alerta: sustentabilidade não é só o que está no rótulo. É tudo o que acontece antes do produto chegar ao seu prato. Descobrir isso é o primeiro passo para comer melhor — para você e para o planeta.
[Fonte: G1 – Globo]