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Acordo comercial entre Mercosul e União Europeia entra na reta final sob risco de colapso após 25 anos de negociações

Com a assinatura prevista para dezembro, o tratado de livre-comércio enfrenta resistência de países europeus, divisões no Parlamento e incertezas políticas que podem inviabilizar um dos acordos mais ambiciosos da história da UE.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Depois de um quarto de século de negociações, o acordo de livre-comércio entre o Mercosul e a União Europeia vive seu momento mais decisivo — e também mais frágil. A expectativa da Comissão Europeia é avançar para a assinatura formal do tratado ainda em dezembro, durante uma viagem da presidente Ursula von der Leyen e do presidente do Conselho Europeu, António Costa, à América do Sul. Mas, nos bastidores de Bruxelas, diplomatas admitem que o desfecho permanece incerto.

O acordo, concluído politicamente em dezembro de 2024 entre a UE e os países do Mercosul — Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai — pretende criar uma vasta zona de livre comércio transatlântica. A iniciativa é vista como estratégica para a Europa em um contexto de tensões geopolíticas crescentes e deterioração das relações comerciais com os Estados Unidos. Ainda assim, a liberalização proposta divide profundamente os Estados-membros.

Uma Europa rachada entre apoio e resistência

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© https://x.com/exame

A Comissão Europeia afirma confiar em uma maioria favorável entre os países do bloco, mas reconhece que a margem é estreita. Para bloquear o acordo, seria necessário reunir ao menos quatro Estados-membros que representem 35% da população da UE — um patamar que a oposição ainda não alcançou, mas do qual se aproxima.

A França lidera a resistência há anos, argumentando que produtos agrícolas do Mercosul criariam concorrência desleal para os agricultores europeus. Paris exige cláusulas de salvaguarda rigorosas e mecanismos de reciprocidade que obriguem os países sul-americanos a cumprir as mesmas normas ambientais e sanitárias vigentes na UE.

Outros países também demonstram oposição ou ceticismo. A Polônia mobilizou seu setor agrícola contra o acordo, enquanto Irlanda e Hungria seguem na mesma linha. Áustria e Países Baixos mantêm posições críticas por razões políticas internas, e a Bélgica já sinalizou que deve se abster. Ainda assim, esse grupo, isoladamente, não é suficiente para barrar o tratado.

Itália se torna peça-chave

Com isso, os holofotes se voltam para a Itália. A primeira-ministra Giorgia Meloni, aliada política do presidente argentino Javier Milei, ainda não declarou oficialmente sua posição. O país é o segundo maior exportador da UE para o Mercosul, o que torna o acesso ampliado ao mercado sul-americano especialmente relevante para sua indústria.

O ministro da Agricultura italiano, Francesco Lollobrigida, chegou a defender publicamente os produtores rurais e pedir salvaguardas robustas. No entanto, as garantias apresentadas pela Comissão Europeia em outubro — incluindo mecanismos de monitoramento do mercado europeu — podem ter suavizado a resistência de Roma. Até mesmo países críticos ao acordo passaram a defender essas salvaguardas como condição mínima caso o tratado avance.

O obstáculo do Parlamento Europeu

Mesmo que os Estados-membros deem sinal verde e a assinatura ocorra, o caminho ainda estará longe do fim. O acordo precisa ser ratificado pelo Parlamento Europeu, onde as divisões são ainda mais profundas. Em 16 de dezembro, os eurodeputados votarão medidas de proteção reforçadas, como a cláusula de reciprocidade. Em seguida, terão início negociações com o Conselho para chegar a um texto comum.

Existe a possibilidade de um procedimento acelerado para permitir que os países adotem uma posição final antes da viagem oficial à América do Sul. Ainda assim, a ratificação parlamentar pode se estender até 2026 — e não há garantias de sucesso.

A extrema direita e a extrema esquerda se opõem frontalmente ao acordo, enquanto os partidos de centro estão divididos de forma semelhante ao Conselho. Nos corredores de Bruxelas, cresce o temor de que o Parlamento acabe derrubando o tratado mesmo após sua assinatura formal.

Risco geopolítico e desgaste diplomático

Diplomatas de países favoráveis ao acordo alertam que um fracasso na reta final teria custos elevados para a UE. Além de perder acesso preferencial a mercados estratégicos da América do Sul, o bloco enfraqueceria sua credibilidade internacional em um momento em que busca diversificar parceiros comerciais e ampliar sua influência geopolítica.

Há também preocupação com o aumento das tensões institucionais. Nos últimos meses, o Parlamento Europeu tem se distanciado das posições dos Estados-membros em temas sensíveis, o que alimenta receios de paralisia política. Em privado, diplomatas admitem que o colapso do acordo seria interpretado como um sinal claro de incapacidade política da União Europeia.

Paciência se esgota no Mercosul

Mercosur
© X – @BrazilBrian

Do outro lado do Atlântico, o cansaço é evidente. Após décadas de negociações, cresce a frustração com a possibilidade de um novo fracasso. “Se o acordo não for apoiado, vou cavar um buraco, enterrá-lo e cobrir tudo com concreto”, disse um alto diplomata sul-americano à Euronews, em uma declaração que resume o sentimento de exaustão.

Com o relógio correndo e as divisões expostas, o futuro do acordo UE–Mercosul segue pendurado por um fio — e as próximas semanas podem definir se ele entrará para a história como um marco do comércio global ou como uma oportunidade perdida após 25 anos de espera.

 

[ Fonte: Euronews ]

 

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