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Ciência

Mistério milenar: por que cientistas evitam abrir esta múmia egípcia há mais de 100 anos

Ela permanece selada, envolta em camadas impecáveis de linho, desafiando arqueólogos e levantando perguntas que a ciência ainda não consegue responder com segurança.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Descoberta no início do século XX, a múmia egípcia apelidada de Bashiri continua envolta em um mistério que intriga especialistas e fascina o público. Apesar dos avanços tecnológicos que permitiram examinar outros corpos do Antigo Egito, Bashiri segue “intocável”, desafiando os limites da arqueologia moderna. Veja o que se sabe até hoje sobre essa figura enigmática e por que ela nunca foi aberta.

Um achado raro no Vale dos Reis

A múmia foi descoberta pelo egiptólogo britânico Howard Carter no Vale dos Reis, região famosa por abrigar tumbas de faraós e nobres do Egito Antigo. Diferentemente de outras múmias, Bashiri chamou atenção desde o início por sua excepcional conservação e pela complexidade das bandagens que cobrem seu corpo, moldadas em padrões geométricos que lembram as pirâmides de Gizé.

Datada do século III a.C., essa relíquia permanece em exposição no Museu Egípcio do Cairo, mas jamais foi aberta. O motivo, segundo os arqueólogos, é o receio de danificar de forma irreversível sua embalagem original — uma obra de arte funerária considerada impossível de restaurar.

A múmia que ninguém ousa tocar

O apelido “a intocável” surgiu entre os especialistas devido à relutância em realizar qualquer intervenção direta no corpo. Diferente de outras múmias que foram desembrulhadas para estudos anatômicos e históricos, Bashiri representa um caso à parte: sua estrutura é tão frágil e sua técnica de embalsamamento tão precisa que qualquer manipulação física poderia levá-la à desintegração.

Além disso, a múmia não traz inscrições externas ou registros detalhados sobre sua origem, o que dificulta ainda mais a identificação de quem teria sido essa figura na sociedade egípcia. A única pista está no nome escrito de forma apressada em seu invólucro, que pode ser lido como Pacheri ou Nenu — interpretação ainda incerta entre os estudiosos.

O que a tecnologia conseguiu revelar

Apesar da impossibilidade de abrir a múmia, o avanço da tecnologia permitiu análises não invasivas. Exames de tomografia computadorizada de alta resolução e imagens 3D revelaram dados importantes sobre a estrutura física do indivíduo mumificado: trata-se de um homem adulto, com cerca de 1,50 metro de altura.

Esses estudos também mostraram detalhes impressionantes do colar que cobre seu peito, composto por várias fileiras de contas e broches em forma de cabeça de falcão — possivelmente relacionados ao deus Hórus. Já o avental que cobre o corpo exibe cenas rituais, com destaque para a representação da múmia deitada em uma cama cerimonial, cercada pelas deusas Ísis e Néftis e pelos quatro filhos de Hórus.

Nos pés, duas imagens do deus Anúbis, divindade funerária ligada à mumificação e ao julgamento dos mortos, reforçam a importância simbólica desse indivíduo no contexto religioso egípcio.

Identidade ainda em aberto

A falta de registros e o cuidado extremo com o corpo sugerem que Bashiri teria sido alguém de alto prestígio na hierarquia egípcia. A técnica sofisticada de embalsamamento, aliada aos símbolos religiosos presentes no envoltório, reforçam a ideia de que se tratava de uma figura respeitada — talvez um sacerdote, nobre ou profeta.

O nome “Bashiri”, que em árabe significa “aquele que prevê o futuro”, não consta nos documentos originais da descoberta e pode ter sido atribuído posteriormente pelos estudiosos, como forma de representar o mistério que envolve sua identidade.

Enquanto o debate entre preservar e investigar continua, Bashiri permanece como um dos maiores enigmas do Egito Antigo — uma relíquia preservada no tempo que ainda guarda segredos sob suas camadas intactas de linho.

[Fonte: Folha de Pernambuco]

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