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Mundo

Montanhas de roupas e um deserto coberto de lixo: a crise invisível da moda global

Em pleno deserto do Atacama, toneladas de roupas — muitas de marcas famosas e jamais usadas — são despejadas todos os anos. Uma iniciativa tenta reverter o cenário com um gesto simbólico e provocador.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Pouca gente imagina, mas por trás das vitrines e araras das grandes marcas de roupas, existe uma realidade devastadora: o descarte em massa de peças novas, não vendidas e nunca usadas. No deserto do Atacama, no Chile, esse problema ganhou forma — e cor. Agora, uma ação conjunta tenta transformar o que virou símbolo do colapso da moda em instrumento de conscientização.

O Atacama como símbolo da crise têxtil

Anualmente, cerca de 39 mil toneladas de roupas são descartadas ilegalmente no deserto do Atacama, uma das regiões mais áridas do mundo. A maioria dessas peças chega ao porto de Iquique, zona de importação livre de impostos, e acaba abandonada em áreas desérticas quando não é revendida ou contrabandeada para outros países da América Latina.

Muitas das roupas ainda estão com etiquetas e vêm de marcas conhecidas globalmente, sobretudo dos países do Norte Global. O problema persiste há décadas, mesmo com a existência de leis no Chile que proíbem o envio de roupas a aterros sanitários comuns, devido à sua composição não biodegradável e altamente inflamável.

De acordo com a Global Fashion Agenda, mais de 92 milhões de toneladas de resíduos têxteis foram descartadas globalmente nos últimos anos. E a tendência é de alta, alimentada pelo modelo de produção em massa e pelas coleções de moda rápida que se renovam em ciclos cada vez mais curtos.

Uma ação para transformar descarte em consciência

Frente a esse cenário, a Fashion Revolution Brasil, em parceria com a ONG chilena Desierto Vestido, criou uma iniciativa que recolhe as roupas abandonadas, higieniza e disponibiliza gratuitamente por meio de um site. O consumidor só paga o frete — que pode chegar a R$ 200 —, calculado com compensação de carbono.

As primeiras 300 peças — que incluíam jaquetas, roupas esportivas, vestidos e jeans — se esgotaram em apenas cinco horas. A expectativa é de que novas remessas sejam disponibilizadas em breve.

A proposta, segundo as organizações, é fazer aquilo que as marcas evitam: distribuir gratuitamente o que consideram não lucrativo. “Essas montanhas de roupas simbolizam um sistema que produz além da capacidade de consumo e ignora o impacto ambiental”, explica Fernanda Simon, diretora-executiva do Fashion Revolution Brasil.

O impacto invisível da indústria da moda

Apesar de pouco discutida, a moda é a segunda indústria que mais polui o planeta, atrás apenas do setor petrolífero. E isso ocorre em várias etapas:

  • O poliéster, material mais utilizado hoje, é derivado do petróleo e responde por mais da metade da produção global de fibras. Sua decomposição leva mais de 200 anos.
  • A indústria da moda é a segunda maior consumidora de água do mundo, segundo a ONU. Uma única calça jeans consome cerca de 11 mil litros de água em sua produção.
  • O setor é responsável por cerca de 10% das emissões globais de carbono, mais do que todos os voos internacionais e o transporte marítimo juntos.
  • No Brasil, foram vendidas 6,55 bilhões de peças de roupa em 2023. O impacto ambiental dessas vendas vai além da produção: inclui transporte, embalagens e descarte.
  • A lavagem das roupas libera microplásticos que contaminam oceanos e ecossistemas. Um único ciclo pode liberar milhões dessas partículas.

A urgência de responsabilização e mudança

Segundo a especialista em ESG Marta Camila Carneiro, professora da FGV, o setor precisa urgentemente rever seu modelo de negócio. “A indústria produz além do consumo possível e ignora o custo ambiental disso”, afirma. Para ela, o Estado deve intervir com fiscalização e leis mais rígidas, responsabilizando empresas pelo descarte inadequado.

“É necessário exigir rastreamento de toda a cadeia produtiva, saber onde as peças vão parar e aplicar penalidades a quem descarta de forma criminosa. Os prejuízos são enormes e recaem sobre a sociedade”, alerta.

E qual é o papel do consumidor?

Embora não seja o principal responsável, o consumidor pode ser um agente de transformação. Para Fernanda Simon, o público precisa entender o impacto de suas escolhas e pressionar por mudanças estruturais: “A população é vítima de um sistema desenhado para o descarte, mas também pode ajudar a mudar o rumo. Conhecer o que acontece no Atacama é um passo essencial para repensar hábitos de consumo”.

A crise exposta no Atacama escancara o lado oculto da moda: um modelo baseado em produção excessiva, lucro acima do necessário e desrespeito ambiental. Transformar esse sistema é urgente — e começa com informação, pressão e novas escolhas.

[Fonte: G1 – Globo]

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