As fronteiras entre o invisível e o tangível acabam de ser redesenhadas. O Prêmio Nobel de Física de 2025 foi concedido a três cientistas que provaram que as leis estranhas da mecânica quântica — aquelas que governam átomos e partículas subatômicas — também valem para sistemas do mundo real. A descoberta abre novas portas para tecnologias baseadas em supercondutividade, computação quântica e sensores ultrassensíveis.
A consagração de um trio pioneiro
O Comitê Nobel anunciou nesta terça-feira (7) que John Clarke (Reino Unido), Michel Devoret (França) e John Martinis (Estados Unidos) dividirão o prêmio “pela descoberta do tunelamento mecânico quântico macroscópico e pela quantização de energia em um circuito elétrico”.
Em termos simples, eles mostraram que as propriedades mais bizarras da física quântica — como a capacidade de um objeto atravessar uma barreira aparentemente intransponível — também podem ocorrer em sistemas compostos por bilhões de partículas.
“Esses cientistas provaram que o mundo quântico não termina no microscópio: ele pode ser segurado nas mãos”, destacou o Comitê Nobel, em Estocolmo.
Do invisível ao palpável
O fenômeno conhecido como tunelamento quântico permite que uma partícula atravesse uma barreira energética sem precisar superá-la — algo impossível segundo as leis clássicas da física.
Até então, acreditava-se que esse tipo de comportamento só poderia ocorrer em escalas minúsculas, como em elétrons ou átomos isolados. Uma bola de tênis, composta por trilhões de partículas, jamais poderia fazer o mesmo.
Mas Clarke, Devoret e Martinis desafiaram essa lógica. Nos anos 1980, eles criaram um circuito supercondutor capaz de mudar de estado como se uma bola de tênis pudesse, literalmente, atravessar uma parede sem bater de volta.
Essa foi a primeira evidência de efeitos quânticos em escala macroscópica, algo considerado impossível por décadas.
When you throw a ball at a wall, you can be sure it will bounce back at you.
You would be extremely surprised if the ball suddenly appeared on the other side of the wall. In quantum mechanics this type of phenomenon is called tunnelling and is exactly the type of phenomenon that… pic.twitter.com/dRBTzdS59C
— The Nobel Prize (@NobelPrize) October 7, 2025
Do paradoxo de Schrödinger à realidade
O trabalho do trio foi comparado ao famoso experimento mental do gato de Schrödinger, proposto em 1935. Nele, um gato preso em uma caixa com um mecanismo radioativo estaria, teoricamente, “vivo e morto ao mesmo tempo” — até que alguém abrisse a caixa e observasse o resultado.
A metáfora de Erwin Schrödinger pretendia mostrar o absurdo de aplicar a mecânica quântica ao mundo cotidiano. Mas, segundo o físico Anthony Leggett, Nobel de 2003, Clarke e seus colegas conseguiram justamente o oposto: demonstrar que o “absurdo” é real.
“Eles provaram que o gato de Schrödinger pode existir — não como um felino, claro, mas como um circuito quântico real”, explicou Leggett.
Da teoria à tecnologia
Além de seu valor teórico, as descobertas do trio abriram caminho para tecnologias revolucionárias. O controle de estados quânticos em dispositivos macroscópicos foi o primeiro passo para o desenvolvimento dos computadores quânticos e de sensores supercondutores hoje usados em laboratórios, satélites e sistemas de comunicação.
John Clarke, ao receber a notícia do prêmio, confessou surpresa: “Nunca imaginamos que nosso trabalho poderia levar a um Nobel. Era pura curiosidade científica”, disse em entrevista à Universidade da Califórnia, Berkeley.
O Comitê ressaltou que praticamente toda tecnologia moderna — de telefones celulares a cabos de fibra óptica — depende, de algum modo, dos princípios quânticos que eles ajudaram a compreender melhor.
Um Nobel que conecta eras
Nos últimos anos, o prêmio vem destacando pesquisas que unem física e tecnologia. Em 2024, o Nobel de Física foi concedido a Geoffrey Hinton e John Hopfield, pioneiros da inteligência artificial e das redes neurais. Já em 2023, o reconhecimento foi para cientistas que usaram lasers ultrarrápidos para observar o movimento de elétrons — algo antes impensável.
Agora, em 2025, o prêmio retorna às origens da mecânica quântica, reafirmando a ponte entre a teoria e o mundo real.
Com o equivalente a US$ 1 milhão em premiação, o Nobel deste ano consagra três pesquisadores que mostraram que a física quântica, longe de ser um mistério abstrato, está literalmente nas nossas mãos.
[ Fonte: CNN Brasil ]