Pensar na morte é inevitável. Imaginar a própria morte, porém, parece ser muito mais difícil. Para o físico e biólogo molecular Venki Ramakrishnan, vencedor do Prêmio Nobel de Química, essa diferença pode não ser apenas psicológica.
Segundo o cientista, nosso cérebro parece ter desenvolvido uma espécie de mecanismo de proteção que nos permite encarar a morte como algo que acontece principalmente com outras pessoas. A ideia aparece em seu livro Why We Die: The New Science of Aging and the Quest for Immortality, no qual ele explora o envelhecimento, a mortalidade e os limites das tentativas de prolongar a vida humana.
Um mecanismo para lidar com a própria morte

“Nosso cérebro parece ter desenvolvido um mecanismo de proteção ao considerar a morte como algo que acontece com outras pessoas, não conosco”, afirma Ramakrishnan.
A observação está ligada a uma das questões centrais abordadas pelo cientista: por que morremos e o que significa tentar prolongar indefinidamente a existência humana.
Ramakrishnan analisa essas perguntas a partir de décadas de experiência no estudo de processos fundamentais da biologia. Embora sua carreira tenha sido construída principalmente em torno da estrutura e do funcionamento dos ribossomos, nos últimos anos ele também passou a investigar e divulgar questões relacionadas ao envelhecimento e à longevidade.
Em seu livro, o pesquisador discute os mecanismos celulares envolvidos no envelhecimento e examina até onde a ciência realmente pode chegar na tentativa de aumentar a expectativa de vida.
Quem é Venki Ramakrishnan
Venkatraman Ramakrishnan nasceu em 1952, em Chidambaram, no estado de Tamil Nadu, na Índia. Físico e biólogo molecular, ele recebeu o Prêmio Nobel de Química em 2009 ao lado de Thomas Steitz e Ada Yonath.
Os três cientistas foram reconhecidos por pesquisas sobre a estrutura e o funcionamento dos ribossomos.
Essas pequenas estruturas celulares, formadas por RNA e proteínas, são essenciais para a vida porque funcionam como verdadeiras fábricas de proteínas dentro das células. Os estudos de Ramakrishnan ajudaram a revelar em detalhes sua organização e também a maneira como determinados antibióticos interagem com elas.
Sua formação acadêmica, curiosamente, começou longe da biologia.
Em 1971, Ramakrishnan concluiu a graduação em física na Universidade de Baroda, na Índia. Cinco anos depois, obteve o doutorado em física pela Universidade de Ohio, nos Estados Unidos.
Foi somente depois disso que começou sua transição para a biologia molecular, estudando a área na Universidade da Califórnia em San Diego entre 1976 e 1978.
A pesquisa que levou ao Nobel
Ramakrishnan realizou pesquisas de pós-doutorado na Universidade Yale entre 1978 e 1982. Foi nesse período que começou a utilizar técnicas de dispersão de nêutrons para investigar a pequena subunidade dos ribossomos da bactéria Escherichia coli.
Posteriormente, trabalhou como biofísico no Laboratório Nacional de Brookhaven, em Nova York, onde continuou estudando ribossomos e outras estruturas biológicas.
Além da dispersão de nêutrons, o pesquisador utilizou cristalografia de raios X, técnica fundamental para determinar a estrutura tridimensional de moléculas em escala atômica.
Em 1999, Ramakrishnan ingressou no Laboratório de Biologia Molecular do Conselho de Pesquisa Médica, em Cambridge, no Reino Unido.
No ano seguinte, publicou uma série de estudos que ajudaram a revelar a estrutura da pequena subunidade ribossômica da bactéria Thermus thermophilus. Essas descobertas contribuíram para a compreensão de como os ribossomos interpretam a informação genética e produzem proteínas.
O impacto desses trabalhos acabaria levando ao Nobel de Química em 2009.
Depois da premiação, Ramakrishnan continuou ocupando posições importantes na comunidade científica. Entre 2015 e 2020, presidiu a Royal Society, uma das instituições científicas mais antigas e prestigiadas do mundo.
Décadas depois das pesquisas que lhe renderam o Nobel, seu foco também passou a incluir uma questão muito mais próxima da experiência cotidiana: por que envelhecemos, por que morremos e por que nossa própria mente parece ter tanta dificuldade em aceitar que a morte também acontecerá conosco.
[ Fonte: La Nación ]