Ferramentas de inteligência artificial como o ChatGPT estão transformando a maneira como trabalhamos, estudamos e buscamos informações. Segundo números divulgados pela OpenAI, centenas de milhões de pessoas já recorrem ao assistente para escrever textos, pesquisar assuntos, resolver tarefas complexas e até conversar sobre questões pessoais.
Toda essa praticidade, porém, começa a levantar uma nova preocupação: o que acontece com nosso cérebro quando deixamos a inteligência artificial pensar por nós?
Alguns estudos recentes sugerem que o uso excessivo e pouco crítico dessas ferramentas pode reduzir o esforço mental envolvido em tarefas como raciocínio, memória e resolução de problemas. É nesse contexto que pesquisadores passaram a discutir conceitos como “preguiça cognitiva” e “dívida cognitiva”.
“Delegar todo o nosso pensamento a uma máquina pode parecer uma boa ideia no início, mas, a longo prazo, é uma desvantagem para o nosso cérebro”, afirma o neurocientista Rodrigo Quian Quiroga, professor ICREA no Hospital del Mar Research Institute.
Experimento do MIT encontrou diferenças na atividade cerebral

Cada vez mais instituições científicas tentam entender como a IA generativa pode influenciar nosso cérebro. Um dos estudos que mais chamaram atenção foi realizado por pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology (MIT).
No experimento, cerca de 50 voluntários precisaram realizar uma atividade com ou sem a ajuda do ChatGPT enquanto sua atividade cerebral era acompanhada por eletroencefalografia.
Os pesquisadores observaram diferenças entre os grupos. Os participantes que recorreram à inteligência artificial apresentaram menor conectividade cerebral durante a tarefa e também tiveram mais dificuldade para recordar posteriormente alguns elementos do conteúdo produzido.
Já aqueles que fizeram o trabalho sem ajuda demonstraram padrões de conectividade mais intensos durante a atividade.
Os resultados não significam que o ChatGPT esteja literalmente “atrofiando” o cérebro. O estudo analisou um número relativamente pequeno de participantes e não permite concluir quais seriam os efeitos de longo prazo da tecnologia. Ainda assim, os pesquisadores consideram os resultados relevantes para entender como a dependência dessas ferramentas pode modificar o esforço cognitivo durante determinadas tarefas.
O que é a chamada “dívida cognitiva”
Outro resultado chamou a atenção dos pesquisadores. Depois de utilizar repetidamente o ChatGPT, alguns participantes tiveram que realizar uma tarefa semelhante sem o auxílio da inteligência artificial.
Nesse momento, seu desempenho não alcançou o mesmo nível observado entre aqueles que haviam trabalhado de maneira independente desde o início.
Os pesquisadores relacionam esse fenômeno à ideia de “dívida cognitiva”: um possível custo acumulado quando tarefas relacionadas ao pensamento crítico, memória e resolução de problemas são constantemente transferidas para ferramentas externas.
A lógica é relativamente simples. Se uma tecnologia executa grande parte do trabalho mental, o usuário pode acabar se envolvendo menos profundamente no processo.
Isso não significa que utilizar IA inevitavelmente provoque perda de capacidades cognitivas. A preocupação está principalmente na dependência recorrente e acrítica dessas ferramentas, especialmente quando elas substituem completamente o esforço intelectual.
Microsoft também investigou o impacto da IA no pensamento crítico
A preocupação não está restrita às universidades.
Uma pesquisa realizada pela Microsoft em parceria com a Carnegie Mellon University analisou como profissionais utilizam ferramentas de inteligência artificial generativa em atividades de trabalho.
Os resultados indicaram que uma maior confiança na IA estava associada, em determinadas situações, a um menor esforço de pensamento crítico. Os próprios pesquisadores alertaram para o risco de que o uso inadequado dessas tecnologias prejudique habilidades cognitivas que deveriam continuar sendo exercitadas.
Ferramentas como ChatGPT, Gemini, Claude e Grok conseguem assumir uma parcela cada vez maior das tarefas intelectuais realizadas diariamente. Por isso, pesquisadores defendem que a questão não deveria ser simplesmente usar ou não usar inteligência artificial.
O ponto principal é descobrir como utilizá-la sem abandonar habilidades humanas importantes.
O problema pode estar no que escolhemos delegar
Para Rodrigo Quian Quiroga, a tecnologia em si não é necessariamente o problema. O mais importante é decidir quais tarefas podem ser transferidas para uma máquina.
Dispositivos digitais já modificaram profundamente nossa relação com a memória e o conhecimento. Hoje, por exemplo, não precisamos memorizar números de telefone, mapas ou grandes quantidades de informação porque sabemos que podemos recuperá-los rapidamente.
Com a inteligência artificial, essa terceirização pode avançar para atividades cognitivamente mais complexas.
“Uma coisa é confiar no ChatGPT para tarefas mecânicas e outra muito diferente é deixar que ele realize tarefas que exigem pensamento crítico ou tome uma decisão importante sem nenhum tipo de supervisão”, explica Quiroga.
A diferença está entre utilizar a IA como ferramenta de apoio e permitir que ela substitua completamente o processo de raciocínio.
O cérebro sempre se adapta às novas tecnologias
O debate não é totalmente novo. Quando os computadores começaram a se popularizar, também surgiram preocupações sobre como essas máquinas poderiam modificar a maneira como as pessoas pensavam.
Segundo Ignacio Morgado Bernal, professor emérito de Psicobiologia da Universidade Autônoma de Barcelona (UAB) e membro da Academia de Psicologia da Espanha, é razoável esperar que ferramentas como o ChatGPT também provoquem mudanças.
O cérebro humano possui grande capacidade de adaptação. Quando determinadas habilidades são utilizadas com frequência, os circuitos envolvidos nelas podem ser reforçados. Quando deixam de ser necessários, outros processos podem ganhar espaço.
Por isso, Morgado considera importante observar como as conexões entre os neurônios poderão mudar com o uso frequente dessas tecnologias, seja pela redução da utilização de determinadas capacidades, seja pelo surgimento de novas exigências cognitivas.
Especialistas pedem cautela principalmente entre estudantes

Uma das maiores preocupações envolve crianças e adolescentes.
Pesquisadores temem que estudantes passem a utilizar ferramentas de IA para obter respostas prontas antes de desenvolver plenamente habilidades como interpretação, argumentação, escrita e resolução de problemas.
Um estudo da Universidade de Xangai sugeriu que a inteligência artificial deve ser incorporada com cuidado às escolas, justamente porque uma dependência excessiva pode interferir no desenvolvimento do pensamento crítico.
A preocupação já chegou às salas de aula.
Na Holanda, centenas de professores pediram que universidades evitem uma adoção acrítica da inteligência artificial. Na Espanha e em outros países, educadores também estão modificando métodos de avaliação para impedir que ferramentas como o ChatGPT substituam completamente o processo de aprendizagem.
As pesquisas disponíveis ainda não permitem afirmar que usar inteligência artificial cause danos permanentes ao cérebro. O que os primeiros resultados sugerem é algo mais específico: quando a tecnologia substitui completamente o esforço mental, podemos nos envolver menos profundamente com aquilo que estamos fazendo.
O desafio, portanto, talvez não seja abandonar o ChatGPT, mas aprender a utilizá-lo como complemento do pensamento humano — e não como seu substituto.
[ Fonte: El Periódico ]