As alergias alimentares afetam milhões de brasileiros e podem causar reações graves, como a anafilaxia — uma emergência médica potencialmente fatal. Atualmente, a prevenção se baseia apenas na evitação rigorosa dos alimentos que causam reação. Agora, dois estudos publicados na revista Science trazem descobertas que podem mudar esse cenário, apontando um medicamento já conhecido como possível aliado na prevenção dessas crises.
O Papel do Sistema Digestivo na Anafilaxia
O primeiro estudo revelou, em experimentos com camundongos, que o sistema digestivo desempenha um papel inesperado em alguns sintomas de alergias alimentares. Foi identificado um gene chamado DPEP1, que regula a liberação de leucotrienos, moléculas ligadas à resposta imune contra alergênicos. Essas substâncias parecem influenciar a quantidade de proteínas inteiras dos alimentos que chegam à corrente sanguínea — justamente aquelas que podem acionar a reação alérgica.
Zileuton: Um Medicamento Conhecido com Novo Potencial
O segundo estudo testou o zileuton, um remédio já usado no tratamento da asma por bloquear a ação dos leucotrienos. Nos testes com camundongos alérgicos a amendoim, a administração do medicamento antes da exposição ao alimento impediu a função habitual dessas moléculas. O resultado foi surpreendente: 95% dos animais não apresentaram sintomas de anafilaxia.
Perspectivas para o Uso em Humanos
Embora os resultados sejam promissores, ainda é cedo para aplicar diretamente em pessoas. Os pesquisadores planejam iniciar testes clínicos para avaliar a eficácia e segurança do zileuton como forma de profilaxia em humanos. A ideia seria tomar o medicamento antes de situações de risco — por exemplo, uma refeição fora de casa em que exista a possibilidade de contaminação cruzada com o alimento alergênico.
Vale destacar que o zileuton já é usado diariamente por pacientes com asma, o que sugere um bom perfil de segurança. No entanto, ainda não está claro como o uso prolongado pode afetar o sistema digestivo.
Um Avanço que Levanta Novas Questões
Além das implicações práticas, as descobertas abrem novas linhas de investigação. Os cientistas querem entender se fatores ambientais, como mudanças na dieta ou no microbioma intestinal, podem influenciar esse mecanismo de controle das proteínas alergênicas.
Se os testes em humanos confirmarem os resultados, o zileuton poderá se tornar uma ferramenta valiosa para evitar crises graves, oferecendo mais segurança e liberdade para pessoas que convivem com alergias alimentares severas.
Fonte: Gizmodo ES