Enquanto o frio se intensifica no hemisfério sul, principalmente na Austrália, o COVID-19 volta ao foco das preocupações com uma nova variante, a NB.1.8.1. Detectada pela primeira vez em janeiro de 2025, essa cepa tem se espalhado rapidamente e já representa uma parcela significativa dos casos em algumas regiões, levantando dúvidas sobre seu potencial de contágio e impacto na saúde pública.
Situação atual da pandemia
Mais de cinco anos após o início oficial da pandemia, o coronavírus continua gerando ondas periódicas de infecção. O rastreamento dos casos se tornou mais difícil, já que menos pessoas fazem testes e notificam os resultados. Ainda assim, os dados disponíveis mostram um aumento dos casos na Austrália no final de maio de 2025.
Entre as variantes detectadas nas análises genômicas, a NB.1.8.1 tem ganhado espaço. No sul da Austrália, sua presença ainda era inferior a 1%, mas em Victoria já representava mais de 40% dos casos até 6 de maio. Em Perth, testes em águas residuais indicaram que a subvariante NB.1.8.1d é agora dominante.
Fora da Austrália, a NB.1.8.1 também está se expandindo rapidamente. Em abril de 2025, representava 10,7% das sequências analisadas globalmente — um salto em relação aos 2,5% de quatro semanas antes. A Ásia tem sido particularmente afetada: a variante se tornou dominante em Hong Kong e na China no fim de abril.
Origem e composição da nova variante
A Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou a NB.1.8.1 como uma “variante sob monitoramento”. Ela é um sublinhagem da variante Ômicron e deriva do linaje recombinante XDV — ou seja, surgiu a partir da mistura genética de duas ou mais variantes anteriores.
Essa recombinação permitiu o surgimento de mutações específicas na proteína spike, estrutura responsável pela entrada do vírus nas células humanas por meio dos receptores ACE2. Entre as mutações observadas estão T22N, F59S, G184S, A435S, V445H e T478I, embora ainda não se saiba com precisão o efeito de cada uma delas.
O que dizem os estudos
Estudos preliminares de laboratório, ainda não revisados por pares, sugerem que a NB.1.8.1 tem maior capacidade de se ligar ao receptor ACE2, o que pode facilitar a infecção celular e, consequentemente, aumentar a transmissibilidade.
Além disso, os anticorpos produzidos por pessoas vacinadas ou que já tiveram COVID mostraram uma resposta de neutralização cerca de 1,5 vezes menor contra a NB.1.8.1 do que contra outra subvariante recente, a LP.8.1.1. Isso pode significar que essa nova cepa consegue escapar parcialmente da imunidade existente, o que favorece sua propagação.
Sintomas e gravidade da infecção
Embora a NB.1.8.1 pareça se espalhar com mais facilidade e driblar parcialmente a imunidade anterior, não há evidências, segundo a OMS, de que ela cause doenças mais graves.
Os sintomas relatados até o momento são semelhantes aos das outras subvariantes da Ômicron: dor de garganta, febre, cansaço, tosse leve, dores musculares e congestão nasal. Em alguns casos, podem ocorrer também sintomas gastrointestinais.
E quanto à vacina?
As autoridades de saúde continuam incentivando a vacinação como principal medida de proteção, especialmente com a aproximação da temporada de infecções respiratórias no inverno australiano. Mesmo que a eficácia dos anticorpos contra a NB.1.8.1 seja ligeiramente menor, as vacinas atuais continuam eficazes na prevenção de casos graves.
O reforço mais recente disponível na Austrália — e em muitos outros países — é direcionado à variante JN.1, da qual a NB.1.8.1 descende. Isso sugere que o imunizante ainda oferece uma boa proteção contra essa nova cepa.
Considerando o cenário atual, indivíduos em grupos de risco, como idosos ou pessoas com comorbidades, devem considerar a aplicação de uma dose de reforço.
Texto de Lara Herrero, professora adjunta e pesquisadora em virologia e doenças infecciosas na Griffith University. Artigo republicado de The Conversation sob licença Creative Commons.