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Ciência

Novo estudo revela uma gigantesca cicatriz geológica sob a Antártida

Sob quilômetros de gelo aparentemente imutável, pesquisadores identificaram uma estrutura colossal que permaneceu invisível por milhões de anos. A descoberta ajuda a reconstruir um dos capítulos mais importantes da formação do planeta.
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Tempo de leitura: 3 minutos

À primeira vista, a Antártida parece um deserto gelado uniforme e silencioso. Mas sob sua superfície congelada existe um mundo completamente diferente, formado por montanhas, vales, lagos e cicatrizes geológicas que permanecem ocultas há milhões de anos. Agora, uma nova pesquisa revelou que algumas dessas estruturas podem estar conectadas por uma formação muito maior do que se imaginava, trazendo pistas surpreendentes sobre um dos momentos mais decisivos da história da Terra.

Uma estrutura colossal escondida sob quilômetros de gelo

Durante décadas, cientistas estudaram diversas depressões subterrâneas localizadas sob a Antártida Oriental como estruturas independentes. No entanto, um novo estudo publicado na revista Nature Geoscience sugere que essas formações fazem parte de um único sistema tectônico de escala continental.

A descoberta foi liderada por pesquisadores da Universidade de Gênova, na Itália, que analisaram novos mapas do relevo escondido sob a camada de gelo antártica. O que chamou a atenção da equipe foi um padrão incomum: dezenas de grandes bacias pareciam se espalhar a partir de uma região próxima ao Polo Sul, formando uma geometria semelhante à de um leque aberto.

Ao todo, foram identificadas cerca de 30 bacias subglaciais. Algumas apresentam formato triangular ou em “V” e se estendem por mais de 1.500 quilômetros. Muitas permanecem enterradas sob mais de três quilômetros de gelo.

Para confirmar que o padrão não era mera coincidência, os pesquisadores cruzaram informações topográficas com dados sísmicos, gravitacionais e magnéticos. O resultado mostrou que a mesma configuração aparece em camadas profundas da crosta terrestre e da litosfera, indicando que sua origem está ligada a antigos processos tectônicos e não apenas à erosão provocada pelas geleiras.

Entre as estruturas incluídas nesse enorme sistema estão algumas das regiões subglaciais mais conhecidas da Antártida, como as bacias de Wilkes e Aurora, além da área que abriga o famoso Lago Vostok.

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© Nature Geoscience

A pista que ajuda a explicar a fragmentação de um supercontinente

Segundo os autores do estudo, essa gigantesca rede de bacias pode ter surgido durante um processo conhecido como extensão rotacional distribuída.

Em vez de se romper por uma única falha reta, a crosta terrestre teria começado a se deformar gradualmente, girando em torno de um ponto relativamente estável. O resultado seria semelhante à abertura de um leque: enquanto o centro permanece quase fixo, suas extremidades se afastam, criando espaços triangulares entre elas.

Esses espaços teriam dado origem às grandes bacias hoje escondidas sob a Antártida. O mais interessante é que esse processo pode ter ocorrido antes da separação definitiva de Gondwana, o supercontinente que reunia América do Sul, África, Antártida, Austrália e Índia.

Os cientistas acreditam que essa deformação enfraqueceu a litosfera ao longo de milhões de anos, preparando o terreno para a futura separação entre a Antártida e a Austrália e para a formação dos oceanos que hoje dividem esses continentes.

A descoberta também possui relevância atual. Essas depressões subterrâneas influenciam diretamente a movimentação das geleiras, o fluxo de água sob o gelo e a estabilidade da camada de gelo antártica. Compreender sua geometria pode ajudar pesquisadores a criar modelos mais precisos sobre como a Antártida responderá às mudanças climáticas nas próximas décadas.

Embora ainda existam dúvidas sobre a idade exata dessas formações, a pesquisa revela que sob um dos ambientes mais extremos do planeta existe uma gigantesca cicatriz geológica que registra o momento em que um supercontinente começou lentamente a se desfazer. E essa é justamente a resposta para o título: cientistas encontraram uma imensa rede de bacias ocultas sob a Antártida que preserva evidências da fragmentação de Gondwana e continua influenciando o comportamento do gelo até hoje.

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