Eles estão na água, nos alimentos, no ar e, como diferentes pesquisas vêm demonstrando, também dentro do corpo humano. Microplásticos e nanoplásticos se tornaram uma nova preocupação para a medicina, especialmente porque ainda existem muitas perguntas sobre seus efeitos a longo prazo. Um estudo realizado por pesquisadores italianos encontrou essas partículas diretamente na circulação coronária e identificou uma diferença particularmente intrigante entre pacientes que haviam sofrido diferentes manifestações de doença cardíaca.
Cientistas procuraram plástico no sangue que circula pelo coração

A investigação analisou a presença de microplásticos e nanoplásticos, conhecidos conjuntamente pela sigla MNPs, na circulação coronária de pessoas com diferentes condições relacionadas à doença arterial coronariana.
Os pesquisadores queriam compreender não apenas se essas partículas estavam presentes, mas também se sua quantidade poderia estar relacionada à inflamação e a fatores ambientais, incluindo exposição à poluição atmosférica.
Os resultados revelaram uma diferença importante.
Pacientes que apresentavam infarto agudo do miocárdio com elevação do segmento ST, conhecido como STEMI, possuíam quantidade e diversidade significativamente maiores de micro e nanoplásticos quando comparados a outros grupos avaliados.
A descoberta chama atenção porque esse tipo de infarto acontece quando ocorre uma obstrução importante do fluxo sanguíneo para uma região do coração.
O trabalho reuniu pesquisadores de instituições italianas, incluindo a Universidade Sapienza de Roma, a Universidade de Verona e a Universidade da Campânia Luigi Vanvitelli, em Nápoles.
Mas encontrar plástico no sangue não significa automaticamente que essas partículas tenham provocado o infarto.
É justamente aí que a interpretação dos resultados exige cautela.
Microplásticos apareceram ao lado de outros sinais preocupantes
A presença dessas partículas coincidiu frequentemente com níveis elevados de biomarcadores associados à inflamação.
Os pesquisadores também observaram uma relação com maior exposição ao material particulado fino PM2.5, um dos principais componentes da poluição atmosférica, além do tabagismo.
Isso sugere que diferentes exposições ambientais podem estar conectadas.
Pessoas mais expostas à poluição e fumantes também apresentaram níveis elevados dessas partículas, acrescentando uma nova peça às evidências acumuladas sobre a influência do ambiente na saúde cardiovascular.
Uma das hipóteses investigadas envolve o revestimento interno dos vasos sanguíneos.
Microplásticos e nanoplásticos poderiam contribuir para danos nesse revestimento e favorecer processos inflamatórios. A inflamação, por sua vez, possui um papel importante na aterosclerose, doença caracterizada pelo acúmulo de gorduras, colesterol e outras substâncias nas paredes arteriais.
Esses depósitos formam placas que podem progressivamente reduzir o espaço disponível para a circulação do sangue.
Quando uma placa se torna instável e se rompe, pode provocar a formação de um coágulo capaz de bloquear uma artéria coronária e desencadear um infarto.
Entretanto, existe uma diferença fundamental entre encontrar uma associação e demonstrar uma relação direta de causa e efeito.
Os cientistas ainda não podem dizer que o plástico provoca infartos

Os resultados não permitem concluir que microplásticos encontrados na circulação sejam, isoladamente, responsáveis por um ataque cardíaco.
As doenças cardiovasculares são complexas e envolvem múltiplos fatores, incluindo genética, idade, tabagismo, pressão arterial, colesterol, diabetes, alimentação e exposição ambiental.
Uma interpretação possível é que essas partículas funcionem como elementos capazes de amplificar processos inflamatórios já existentes.
Isso torna sua presença especialmente interessante para os pesquisadores.
Nos últimos anos, estudos começaram a detectar micro e nanoplásticos em diferentes partes do organismo humano. A pergunta deixou gradualmente de ser apenas se conseguimos absorver plástico e passou a incluir outra questão muito mais difícil: o que acontece depois que essas partículas entram no corpo?
O tamanho ajuda a compreender a preocupação.
Microplásticos são fragmentos extremamente pequenos produzidos diretamente nessa escala ou resultantes da degradação progressiva de objetos plásticos maiores. Já os nanoplásticos atingem dimensões ainda menores.
Quanto menor a partícula, maior a preocupação sobre sua capacidade de atravessar determinadas barreiras biológicas e alcançar tecidos e a circulação.
Mas como algo produzido fora do organismo consegue chegar até o sangue?
Como essas partículas conseguem entrar no corpo humano
A resposta está na enorme presença do plástico no ambiente moderno.
Fragmentos microscópicos podem estar presentes na água, em alimentos e no próprio ar que respiramos. Dessa maneira, as principais vias investigadas de entrada no organismo são a ingestão e a inalação.
Depois de entrar no corpo, uma parcela das partículas menores pode potencialmente atravessar barreiras biológicas e alcançar a circulação.
A exposição é praticamente impossível de compreender sem considerar a escala da produção mundial.
Mais de 400 milhões de toneladas de plástico são produzidas anualmente no planeta, e uma parcela considerável é destinada a produtos utilizados apenas uma vez. Menos de 10% do material plástico produzido globalmente é reciclado.
Milhões de toneladas acabam todos os anos em rios, lagos e oceanos. Com o tempo, a exposição à luz, ao calor, ao atrito e a outros processos fragmenta parte desse material em pedaços progressivamente menores.
Essas partículas acabam circulando pelos ecossistemas e podem chegar à cadeia alimentar.
É assim que um problema inicialmente associado a garrafas, sacolas e embalagens descartadas passa a assumir uma dimensão microscópica.
O plástico deixou de ser apenas um problema fora do corpo
A poluição plástica já foi encontrada desde regiões montanhosas até ambientes marinhos profundos. Agora, sua presença dentro do organismo humano transformou o tema em uma questão também biomédica.
Ainda existem muitas incertezas.
Detectar uma partícula no sangue não significa necessariamente demonstrar que ela causará uma doença. Da mesma forma, encontrar concentrações maiores entre pacientes cardíacos não prova que o plástico tenha provocado diretamente seus problemas cardiovasculares.
Mas a combinação encontrada no estudo merece atenção: mais micro e nanoplásticos, maior inflamação e exposição a fatores ambientais conhecidos por prejudicar o sistema cardiovascular apareceram associados em determinados pacientes.
É justamente essa sobreposição que os cientistas querem compreender melhor.
Durante décadas, o impacto do plástico foi discutido principalmente a partir daquilo que podíamos enxergar: resíduos acumulados em praias, animais presos em embalagens e enormes quantidades de lixo nos oceanos.
Agora, a preocupação está migrando para uma escala muito menor.
Tão pequena que não pode ser percebida a olho nu, mas aparentemente grande o suficiente para chegar até o sangue que alimenta o coração.
[Fonte: Meteored]