Pular para o conteúdo
Ciência

Novo método detecta lixo espacial com alta precisão e pode proteger satélites de colisões

Pesquisadores desenvolveram uma técnica baseada em radiotelescópios capaz de identificar detritos espaciais, medir suas características físicas e acompanhar sua evolução em órbita. A inovação pode tornar o monitoramento espacial mais preciso e ajudar a evitar colisões com satélites.
Por

Tempo de leitura: 3 minutos

O aumento constante da quantidade de lixo espacial em órbita representa um dos maiores desafios para a exploração espacial moderna. Fragmentos de foguetes, satélites desativados e outros detritos circulam ao redor da Terra em velocidades extremamente altas, colocando em risco missões espaciais e sistemas de comunicação.

Agora, um estudo apresentado durante o 76º Congresso Internacional de Astronáutica (International Astronautical Congress), realizado em Sydney, na Austrália, apresenta uma nova tecnologia capaz de identificar esses objetos com muito mais detalhes. A técnica utiliza radiotelescópios para analisar as chamadas assinaturas micro-Doppler, permitindo determinar como os detritos giram, qual é seu formato e até estimar sua composição.

Como funciona a nova tecnologia

Starlink Satelite
© Unsplash

A pesquisa foi desenvolvida dentro do programa Southern Hemisphere Asteroid Radar Programme (SHARP), que busca ampliar a capacidade de monitoramento de objetos próximos à Terra.

O método utiliza radiotelescópios para captar sinais de rádio refletidos pelos detritos espaciais. A partir dessas reflexões, os pesquisadores conseguem analisar pequenas variações de frequência conhecidas como assinaturas micro-Doppler.

Essas variações revelam informações importantes sobre o comportamento do objeto, como velocidade de rotação, dimensões, formato e orientação durante a órbita.

Radiotelescópios funcionam como radares

Diferentemente dos telescópios ópticos, que observam a luz visível, os radiotelescópios captam ondas de rádio emitidas ou refletidas por objetos no espaço.

Neste estudo, os pesquisadores adaptaram diversos radiotelescópios australianos para operarem como um sistema de radar multiestático, no qual vários instrumentos observam simultaneamente o mesmo objeto a partir de diferentes posições.

Essa abordagem permite reconstruir características dos detritos com muito mais precisão do que seria possível utilizando apenas um único radar.

Mais de quatro anos de observações

Entre março de 2021 e setembro de 2025, a equipe monitorou 20 corpos de foguetes e satélites desativados distribuídos em diferentes altitudes.

As observações incluíram objetos em órbitas baixas e também em órbita geoestacionária, localizada a cerca de 36 mil quilômetros da Terra.

Os pesquisadores conseguiram medir o período de rotação de cada objeto com precisão de poucos segundos e estimar seu tamanho com margem de erro inferior a 10% em comparação com dimensões já conhecidas.

Além disso, a incerteza na determinação da posição orbital foi reduzida em até 30%, melhorando significativamente a previsão das trajetórias.

Assinaturas micro-Doppler revelam detalhes invisíveis

As assinaturas micro-Doppler permitiram distinguir diferentes tipos de objetos em órbita.

Os pesquisadores conseguiram identificar estruturas simples, como os estágios cilíndricos dos foguetes SL-12 e Atlas V, além de objetos muito mais complexos, como o satélite HALCA, cujos painéis solares e antenas modificam o padrão das reflexões de rádio.

O sistema também mostrou que alguns detritos apresentam mudanças graduais em seu movimento ao longo do tempo.

Um exemplo foi o estágio de um foguete Atlas V lançado em 2015, que manteve um período de rotação estável de aproximadamente 220 segundos durante quatro campanhas de observação, embora pequenas alterações na intensidade do sinal indiquem que sua dinâmica continua evoluindo sob influência da radiação solar e do ambiente espacial.

Tecnologia aproveita infraestrutura já existente

Para realizar as medições, os pesquisadores transmitiram sinais de rádio a partir de uma estação da NASA em Canberra.

Os ecos refletidos pelos detritos foram captados por uma rede de radiotelescópios operados pelo CSIRO Australian Compact Telescope Array e pela Universidade da Tasmânia.

Os cientistas aplicaram diferentes técnicas de compensação Doppler para separar os efeitos do movimento orbital e da rotação dos objetos, permitindo medir pequenas variações na frequência dos sinais com registros realizados a cada cinco segundos.

O estudo também utilizou algoritmos semelhantes aos empregados em tomografias médicas para reconstruir imagens tridimensionais dos detritos, possibilitando estimar tamanho, massa e identificar componentes como painéis solares e antenas.

Monitoramento mais barato e eficiente

Astrônomos Descobrem Enxame Oculto De Lixo Espacial Que Ameaça A órbita Mais ValiOSa Da Terra
© ESA

Segundo os pesquisadores, uma das maiores vantagens da técnica é aproveitar radiotelescópios já existentes, reduzindo significativamente os custos em comparação com sistemas tradicionais de radar espacial.

A solução pode ampliar a capacidade de vigilância de objetos em órbitas altas e geoestacionárias, melhorar os modelos de distribuição do lixo espacial e aumentar a precisão das previsões de colisões.

A equipe acredita que futuras campanhas deverão aperfeiçoar ainda mais os métodos de reconstrução das imagens e ampliar o monitoramento contínuo dos detritos, contribuindo para uma gestão mais segura e sustentável do ambiente espacial.

 

[ Fonte: Infobae ]

 

Partilhe este artigo

Artigos relacionados