Em Aylesbury, uma cidade localizada a cerca de 80 quilômetros a noroeste de Londres, os arqueólogos fizeram uma descoberta excepcional: um ovo romano enterrado há mais de dois milênios e que, incrivelmente, ainda conserva seu conteúdo líquido.
O achado ocorreu em 2010, durante uma escavação realizada pela equipe da Oxford Archaeology, mas apenas em agosto de 2023 os cientistas conseguiram confirmar que o ovo permanecia intacto e com líquido em seu interior, algo quase inédito na história da arqueologia.
De acordo com Edward Biddulph, gerente sênior de projetos da Oxford Archaeology, o ovo foi encontrado em um poço que, em sua época, era utilizado para maltear e produzir cerveja até aproximadamente o ano 270 d.C.
O mistério por trás de sua preservação
Os especialistas em arqueologia destacaram o caráter excepcional da descoberta, pois é extremamente raro que um ovo se conserve sem a intenção de preservação e com seu conteúdo líquido após tantos séculos.
Douglas GD Russell, curador principal de ovos e ninhos de aves no Museu de História Natural, explicou que existem outros casos de ovos antigos bem preservados, mas nenhum com líquido em seu interior e com idade semelhante.
Por meio de uma análise com microtomografia computadorizada, os cientistas confirmaram que tanto a gema quanto a clara permaneciam dentro do ovo, deixando os especialistas completamente perplexos.
Um ovo como parte de um ritual romano?
Os arqueólogos acreditam que os quatro ovos encontrados no poço poderiam ter feito parte de um ritual religioso na Roma Antiga, semelhante ao costume atual de lançar moedas em fontes para fazer desejos.

Segundo Biddulph, na época romana era comum realizar oferendas aos deuses em poços e fontes para atrair boa sorte e proteção divina. Essa descoberta reforça a teoria de que o poço onde os ovos foram encontrados pode ter sido utilizado com esse propósito.
No entanto, nem todos os ovos resistiram à passagem do tempo. Embora três dos quatro encontrados estivessem intactos, dois se quebraram ao serem retirados do solo, liberando um forte odor sulfuroso devido ao seu conteúdo em decomposição.
Análises futuras e novas oportunidades de pesquisa
A equipe da Oxford Archaeology agora enfrenta um desafio crucial: extrair o conteúdo do ovo sem danificá-lo para analisar sua composição e determinar a espécie de ave que o pôs.
Para isso, os pesquisadores planejam utilizar uma técnica semelhante à de esvaziamento de ovos, um método no qual se perfura um pequeno orifício na casca e se extrai o conteúdo sem comprometer a estrutura do ovo. Antes de realizar esse procedimento, os cientistas criarão um modelo 3D do ovo para garantir que a manipulação seja o menos invasiva possível.
A descoberta deste ovo romano intacto abre novas possibilidades para o estudo da preservação de materiais orgânicos em contextos arqueológicos. Como mencionou Russell, “será muito interessante ver se podemos usar técnicas modernas de análise para lançar mais luz sobre essa descoberta excepcional”.
Por sua vez, Biddulph demonstrou entusiasmo com o futuro da pesquisa: “Cada passo que damos nesse estudo abre novas portas e nos permite entender melhor como certos objetos podem sobreviver intactos por milhares de anos”.
Este ovo de 2.000 anos, além de seu valor arqueológico, é um testemunho único dos costumes e rituais da Roma Antiga, e sua análise pode fornecer informações essenciais sobre a vida cotidiana da época.