Uma dose de doçura pode ser a chave para combater a calvície. Cientistas da China e da Austrália desenvolveram um adesivo de microagulhas feito com estévia que potencializa o efeito do minoxidil, o princípio ativo de tratamentos populares contra a queda de cabelo. O estudo, publicado na Advanced Healthcare Materials, mostrou resultados impressionantes em camundongos e abre caminho para uma nova geração de terapias capilares mais eficazes e seguras.
A busca por um tratamento mais potente
O minoxidil é o medicamento mais usado no mundo para tratar a alopecia androgenética, conhecida como calvície de padrão masculino ou feminino. Ele age estimulando os folículos capilares e melhorando o fluxo sanguíneo no couro cabeludo, mas tem limitações: dissolve-se mal em líquidos e é pouco absorvido pela pele.
Por isso, o tratamento precisa ser aplicado uma ou duas vezes por dia — e, mesmo assim, nem sempre oferece resultados satisfatórios. Além disso, os solventes usados para aumentar a absorção do minoxidil, como o etanol e o propilenoglicol, podem causar coceira, irritação e descamação no couro cabeludo.
Diante desses desafios, cientistas começaram a explorar técnicas alternativas, como o microneedling, em que microperfurações aumentam a penetração do produto e estimulam o crescimento dos fios. Foi a partir dessa ideia que o pesquisador Lifeng Kang, da Universidade de Sydney, decidiu criar um adesivo que combinasse as duas abordagens: microagulhas e liberação controlada do medicamento.
O papel surpreendente da estévia
A grande inovação está no uso da estévia (Stevia rebaudiana), uma planta conhecida por seu poder adoçante natural. O grupo de Kang descobriu que o esteviosídeo, principal composto da planta, podia ser usado como base para fabricar as microagulhas — e, ao mesmo tempo, ajudar o minoxidil a se dissolver melhor em água.
Assim, o adesivo funcionaria de forma dupla: ao ser aplicado sobre o couro cabeludo, as microagulhas se dissolvem lentamente, liberando o minoxidil diretamente na pele e facilitando sua absorção.
Resultados promissores em camundongos
Nos testes, os cientistas aplicaram o adesivo em camundongos tratados com testosterona para simular a calvície. Os animais receberam três tipos de tratamento: sem medicação, com minoxidil convencional e com o novo adesivo adoçado com estévia.
Após 35 dias, os resultados foram claros: os ratos tratados com o adesivo recuperaram 67% da área com perda de pelos, enquanto os que usaram o minoxidil comum tiveram apenas 25% de recuperação. A análise também mostrou que a pele absorveu o medicamento de forma mais profunda e uniforme com o patch de estévia.
“Esses resultados abrem possibilidades empolgantes para terapias mais eficazes e fáceis de usar”, afirmou Kang ao Gizmodo.
Próximos passos: dos ratos aos humanos
Apesar do sucesso inicial, os autores alertam que ainda é cedo para aplicar o método em pessoas. “Os ciclos de crescimento capilar humanos são diferentes, e a calvície tem múltiplas causas”, explicou Kang. Por isso, serão necessários ensaios clínicos para confirmar a eficácia e a segurança do adesivo em humanos.
Como a estévia já é amplamente usada como aditivo alimentar e considerada segura, os pesquisadores acreditam que o caminho regulatório pode ser mais simples. A equipe agora busca entender exatamente por que o adoçante aumenta a potência do minoxidil e se outros compostos naturais poderiam ter o mesmo efeito.
Um tratamento mais doce e prático
Se os testes em humanos confirmarem os resultados, o adesivo poderá simplificar o tratamento da calvície, reduzindo a frequência de aplicação e melhorando a adesão dos pacientes.
“O patch de microagulhas pode tornar o tratamento mais prático e aumentar as chances de sucesso”, disse Kang.
Em outras palavras: o futuro da terapia capilar pode estar — literalmente — em uma pitada de doçura.