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Tecnologia

O alerta das crianças: por que quem mais gosta de IA é também quem mais vê seus perigos

Um estudo inédito no Reino Unido revela que crianças entre 8 e 12 anos usam intensamente ferramentas como o ChatGPT, mas também são as primeiras a identificar riscos como exclusão, desinformação e impactos ambientais. Elas pedem mais diversidade, transparência e equilíbrio entre o digital e o físico.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A inteligência artificial generativa está se tornando parte do dia a dia das crianças — e elas têm muito a dizer sobre isso. De acordo com o maior estudo britânico sobre IA e infância, 22% das crianças entre 8 e 12 anos já usaram ferramentas como o ChatGPT. O mais surpreendente? São justamente as que mais usam que mostram maior consciência crítica sobre seus riscos, desde preconceitos e falta de representatividade até os efeitos ambientais do uso excessivo da tecnologia.

A nova geração já fala com IA — e tem opiniões fortes

Ia Criancas
© Maxim Tolchinskiy- Unsplash

O estudo, conduzido pelo The Alan Turing Institute em parceria com o Children’s Parliament e apoio da LEGO, mostra que a IA generativa já é parte da rotina de muitas crianças. Entre as que a utilizam, 72% o fazem com frequência mensal ou maior, principalmente para criar imagens divertidas (43%), aprender ou buscar informações (43%) e fazer tarefas escolares (37%).

O uso cresce com a idade e varia de acordo com o gênero, tipo de escola e necessidades educacionais. Alunos de escolas privadas usam três vezes mais IA que os de escolas públicas (52% contra 18%). E entre crianças com necessidades especiais, o uso da ferramenta chega a 78%.

Pais otimistas, professores em alerta

A maioria dos pais (76%) se mostra otimista quanto ao uso da IA pelos filhos — especialmente os que também usam a tecnologia (84%). Mas o entusiasmo vem acompanhado de preocupações: 82% temem que as crianças acessem conteúdos inapropriados e 76% receiam uma perda na capacidade de pensamento crítico.

Nas escolas, o uso da IA também levanta dilemas. Cerca de 57% dos professores que detectam seu uso afirmam que os alunos entregam trabalhos gerados por IA como se fossem próprios, especialmente nas escolas públicas. Ainda assim, 85% dos educadores que usam IA em sala relatam aumento na produtividade, embora apenas 40% acreditem que a tecnologia melhore a criatividade dos alunos.

“Não parecia comigo”: quando a IA exclui

Nos workshops realizados na Escócia, muitas crianças expressaram frustração ao perceber que as imagens geradas pela IA não refletiam sua identidade. Mesmo após fornecerem descrições detalhadas, crianças negras e de outras etnias viam imagens de pessoas brancas e masculinas. “Fiquei triste porque a imagem não parecia comigo. Deveria ter todas as cores de pele”, disse uma menina.

Outras também demonstraram preferência por atividades físicas — como pintura e modelagem — por sentirem mais controle e orgulho do resultado. A IA, para muitos, ainda é vista como uma ferramenta complementar, e não como substituta da criação manual.

Desigualdade digital e preocupação ambiental

O estudo revela uma profunda desigualdade no acesso à IA: escolas privadas oferecem mais recursos, enquanto professores de escolas públicas dependem de licenças pessoais. Apenas 26% têm acesso institucional. Isso agrava a disparidade no preparo digital entre alunos de contextos diferentes.

Além disso, o impacto ambiental da IA surpreendeu e incomodou os participantes. Após saberem que cada interação com IA pode consumir até meio litro de água, algumas crianças decidiram limitar seu uso. “É ridículo usar tanta água”, afirmou um dos entrevistados. Elas sugeriram restringir o número de imagens geradas por dia e exigiram mais transparência das plataformas.

Sete recomendações para proteger a infância na era da IA

O relatório propõe medidas para governos, escolas, famílias e empresas, com foco em equidade, segurança e participação infantil:

  1. Incluir as crianças no design e na regulação de ferramentas de IA.

  2. Desenvolver tecnologias apropriadas à idade e que protejam a privacidade.

  3. Reduzir desigualdades com apoio a escolas públicas e recursos gratuitos.

  4. Ensinar ética, sustentabilidade e pensamento crítico desde cedo.

  5. Garantir diversidade e representatividade nas imagens e textos gerados.

  6. Informar sobre o impacto ambiental e adotar práticas sustentáveis.

  7. Valorizar o jogo físico e a criatividade offline.

Como o estudo foi feito

A pesquisa envolveu 1.700 participantes e combinou métodos quantitativos e qualitativos. Foram ouvidas 780 crianças, suas famílias e 1.001 professores do Reino Unido. Além disso, 40 crianças participaram de oficinas em duas escolas públicas da Escócia, nas cidades de Dundee e Edimburgo, explorando a IA em atividades criativas.

O estudo seguiu o modelo RITEC da Unicef, voltado à avaliação do bem-estar infantil no uso de tecnologias. As crianças puderam escolher livremente entre materiais digitais e físicos, revelando suas preferências e percepções de maneira espontânea.

 

[ Fonte: Infobae ]

 

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