Alguém acorda pela manhã e escuta uma pergunta desconcertante: “Você sabe o que disse enquanto dormia?”. O problema é que não existe lembrança alguma daquela conversa. Esse fenômeno tem nome, é muito mais comum do que parece e não significa necessariamente que a pessoa esteja revelando pensamentos secretos. Enquanto o corpo descansa, algumas engrenagens cerebrais continuam trabalhando e, ocasionalmente, acabam transformando atividade mental em palavras.
O cérebro não simplesmente “desliga” quando adormecemos

Falar durante o sono é conhecido como somniloquia, um tipo de parasomnia caracterizado pela produção involuntária de sons ou palavras enquanto a pessoa permanece dormindo. Pode envolver desde murmúrios incompreensíveis até frases surpreendentemente estruturadas.
E existe um detalhe importante: isso não acontece exclusivamente enquanto estamos tendo aqueles sonhos vívidos que costumamos associar à fase REM.
A somniloquia pode aparecer tanto durante o sono REM quanto durante fases NREM. Em outras palavras, não basta concluir que alguém está simplesmente narrando em voz alta aquilo que está sonhando.
Durante o sono, o cérebro continua realizando uma quantidade impressionante de trabalho. Diferentes redes permanecem ativas, memórias são processadas e a atividade mental continua ocorrendo mesmo quando nossa consciência do ambiente praticamente desaparece.
Em determinados momentos, os circuitos relacionados à linguagem também podem entrar em ação.
O resultado pode escapar pela boca.
A pessoa não decide falar, geralmente não percebe que falou e frequentemente descobre o episódio apenas porque alguém estava ao lado para ouvir.
Algumas frases parecem conversas perfeitamente normais
Talvez a parte mais curiosa esteja no conteúdo dessas manifestações.
Um estudo publicado na revista científica Sleep analisou 883 episódios de vocalização noturna. Cerca de 59% eram manifestações não verbais, incluindo murmúrios, risadas, gritos e sussurros. Ainda assim, os pesquisadores conseguiram identificar milhares de palavras compreensíveis.
E o cérebro adormecido demonstrou respeitar algumas regras surpreendentemente sofisticadas.
As frases podiam manter estruturas gramaticais semelhantes às utilizadas durante a vigília. Em aparentes diálogos, até mesmo as pausas entre uma fala e outra reproduziam o ritmo esperado de uma conversa real.
Outro resultado chama ainda mais atenção.
A palavra mais frequente identificada pelos pesquisadores foi “não”. As negações representaram aproximadamente 21% das orações analisadas, e perguntas também apareceram com frequência.
Isso pode criar cenas curiosas para quem está acordado ao lado: a pessoa dormindo parece discutir, responder a alguém invisível ou participar de uma conversa cuja outra metade simplesmente não existe no quarto.
Mas isso não transforma o episódio em detector de verdades escondidas.
Não, falar dormindo não é um soro da verdade

Existe uma tentação quase inevitável de interpretar aquilo que alguém diz durante o sono.
Um nome inesperado, uma frase estranha ou alguma declaração comprometedora pode parecer uma janela aberta diretamente para o inconsciente.
A ciência recomenda muito mais cautela.
Embora pesquisas indiquem que determinadas vocalizações possam refletir elementos da atividade mental e dos sonhos em andamento, o conhecimento científico sobre a relação exata entre aquilo que sonhamos e aquilo que pronunciamos continua incompleto.
O conteúdo pode estar fragmentado, fora de contexto ou simplesmente fazer parte de uma narrativa onírica sem relação direta com acontecimentos reais.
Também não é preciso estar no sono REM para produzir atividade mental semelhante a sonhos. Estudos mostram que experiências mentais podem ocorrer durante fases NREM, embora suas características possam ser diferentes.
Portanto, aquela frase misteriosa pronunciada às três da manhã dificilmente deveria ser tratada como uma confissão.
O cérebro adormecido continua produzindo histórias. Às vezes, apenas deixa uma pequena parte delas escapar.
Na maioria das vezes, não existe motivo para preocupação
A somniloquia isolada costuma ser considerada um fenômeno benigno e não necessariamente indica qualquer doença. Ela é particularmente frequente durante a infância e tende a diminuir na vida adulta.
Fatores que fragmentam ou alteram o sono podem favorecer episódios. Privação de sono, horários irregulares, estresse, consumo de álcool e determinados transtornos do sono aparecem entre os elementos associados ao fenômeno.
Existem, entretanto, situações que merecem atenção.
Quando as falas aparecem acompanhadas por chutes, movimentos violentos, gritos intensos, pausas respiratórias ou outros comportamentos incomuns, especialistas recomendam avaliação profissional, pois esses sinais podem estar relacionados a outras parasomnias ou distúrbios do sono.
Para a maioria das pessoas, porém, a explicação é muito menos assustadora.
Dormir não significa colocar o cérebro em modo desligado. Enquanto acreditamos estar completamente desconectados do mundo, ele continua organizando informações, produzindo experiências mentais e alternando entre diferentes estados de atividade.
E, de vez em quando, uma dessas atividades encontra o caminho até os músculos responsáveis pela fala.
Quem está dormindo provavelmente não perceberá nada.
Quem estiver ao lado talvez ganhe uma história excelente para contar no café da manhã.
[Fonte: ET]