A Copa do Mundo de 2026 promete ser a maior da história, com 48 seleções, 104 partidas e milhões de torcedores espalhados pela América do Norte. Mas existe um adversário silencioso crescendo nos bastidores do torneio: o calor extremo.
Segundo uma análise recente do grupo internacional World Weather Attribution (WWA), as mudanças climáticas aumentaram drasticamente o risco de jogadores e fãs enfrentarem condições perigosas durante o Mundial. O estudo aponta que parte significativa dos jogos poderá ocorrer sob temperaturas e níveis de umidade que ultrapassam os limites considerados seguros pelo sindicato global de atletas FIFPRO.
O alerta reforça como o aquecimento global deixou de ser apenas uma questão ambiental para impactar diretamente eventos esportivos de escala mundial.
O risco climático quase dobrou desde a Copa de 1994

Os pesquisadores compararam as condições previstas para o Mundial de 2026 com aquelas registradas na Copa de 1994, também realizada nos Estados Unidos. A conclusão chama atenção: o risco de partidas acontecerem em condições extremas praticamente dobrou desde então.
Os cientistas analisaram os horários previstos dos jogos e calcularam a probabilidade de cada uma das 104 partidas ocorrer acima dos limites térmicos recomendados pela FIFPRO.
O principal indicador utilizado foi a chamada temperatura de globo de bulbo úmido, conhecida pela sigla WBGT. Diferentemente da temperatura comum, esse índice considera também a umidade do ar e a capacidade do corpo humano de dissipar calor.
Quando o WBGT ultrapassa determinados níveis, aumentam significativamente os riscos de exaustão térmica, desidratação e até colapso físico.
Um quarto dos jogos pode acontecer em condições perigosas

De acordo com o levantamento, cerca de 25% das partidas — aproximadamente 26 jogos — poderão ocorrer acima do limite de 26 graus WBGT, faixa em que a FIFPRO já recomenda medidas especiais de proteção, como pausas para hidratação e estratégias de resfriamento.
O cenário mais preocupante envolve pelo menos cinco partidas que podem atingir níveis próximos de 28 graus WBGT. Em termos práticos, isso equivale a cerca de 38 °C em clima seco ou 30 °C em condições de alta umidade.
Nessa faixa, o sindicato dos jogadores considera que as condições deixam de ser seguras para a prática esportiva.
Para atletas submetidos a esforço intenso por mais de 90 minutos, a combinação entre calor e umidade reduz drasticamente a capacidade de resfriamento do organismo. O impacto não afeta apenas os jogadores: torcedores em estádios abertos também ficam vulneráveis, principalmente durante partidas disputadas no período da tarde.
Nem todas as cidades enfrentam o mesmo problema

O estudo mostra que algumas sedes apresentam risco muito maior que outras. Entre os locais mais preocupantes aparecem cidades como Miami, Kansas City, Filadélfia e a região de Nova York/Nova Jersey, especialmente porque muitos estádios não possuem sistemas completos de climatização.
Mais de um terço das partidas consideradas de alto risco deverá ocorrer justamente em arenas sem ar-condicionado interno.
Por outro lado, a Cidade do México surge como uma das sedes mais seguras do torneio em termos térmicos. A altitude elevada ajuda a reduzir os impactos do calor extremo. Já Monterrey aparece em uma situação intermediária, com risco menor que cidades americanas mais úmidas.
Cientistas alertam para um “risco muito real”
A pesquisadora Joyce Kimutai, especialista em eventos climáticos extremos do Imperial College London, afirma que aproximadamente metade do aquecimento global causado pela humanidade ocorreu desde a Copa de 1994.
Segundo ela, existe um “risco muito real” de partidas serem disputadas em condições perigosas tanto para atletas quanto para torcedores.
A climatologista Friederike Otto, uma das principais referências mundiais em atribuição climática, afirma que o estudo demonstra como o aquecimento global já afeta diretamente a viabilidade de grandes eventos esportivos realizados durante o verão no hemisfério norte.
Para ela, o fato de um dos maiores eventos do planeta correr risco de acontecer sob “calor em nível de cancelamento” deveria servir como alerta para a FIFA e para o mundo esportivo em geral.
O debate também reacende discussões sobre mudanças de calendário, horários noturnos e adaptação da infraestrutura esportiva diante de um planeta cada vez mais quente.
[ Fonte: DW ]