Durante décadas, a destruição da Amazônia foi associada principalmente ao desmatamento, à expansão agropecuária e às queimadas. Mas um novo relatório mostra que existe outro fator acelerando o colapso da floresta em ritmo alarmante: o avanço do crime organizado.
Segundo a pesquisa “O saque da floresta: blindando a Amazônia contra o crime organizado”, publicada pela organização International Crisis Group, grupos criminosos já operam em pelo menos 67% dos municípios amazônicos de Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela.
O estudo afirma que atividades ligadas ao tráfico de cocaína e à mineração ilegal de ouro estão devastando ecossistemas inteiros, contaminando rios, ampliando a violência e aproximando a Amazônia de um possível colapso ecológico irreversível.
Os pesquisadores alertam que entre 20% e 25% da floresta podem perder sua capacidade natural de regeneração.
A Amazônia virou uma rota estratégica do narcotráfico

O relatório mostra que mudanças recentes no consumo global de drogas transformaram a Amazônia em uma das principais zonas logísticas do tráfico internacional.
O aumento da demanda por cocaína na Europa, combinado com operações policiais em rotas tradicionais, empurrou organizações criminosas para caminhos mais longos e menos monitorados através da floresta amazônica.
Os rios passaram a funcionar como verdadeiras “rodovias” do crime.
Laboratórios clandestinos espalhados por áreas remotas da Colômbia, Peru, Equador e Bolívia processam folhas de coca em pasta base e cocaína refinada, que depois seguem pelos milhares de afluentes amazônicos até grandes portos brasileiros.
Segundo o relatório, o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital ampliaram enormemente sua presença na Amazônia nos últimos 15 anos.
As organizações controlam rotas estratégicas que levam a portos como Barcarena, no Pará, e Santos, em São Paulo, considerados pontos-chave para o envio de drogas à Europa.
O ouro ilegal virou ainda mais lucrativo que a cocaína
Se o narcotráfico já representava uma ameaça gigantesca, a explosão do preço do ouro agravou ainda mais a situação.
Com a cotação do metal atingindo níveis históricos em 2026, a mineração ilegal se tornou uma das atividades mais lucrativas da região amazônica — em alguns casos, até mais rentável que o tráfico de drogas.
O problema é que a extração ilegal de ouro gera destruição ambiental imediata e extremamente difícil de reverter.
Garimpos clandestinos utilizam mercúrio e cianeto para separar o ouro dos sedimentos, contaminando rios, peixes, solos e comunidades inteiras.
Além disso, enormes áreas de floresta são devastadas para abrir espaço para crateras, pistas clandestinas e acampamentos ilegais.
Segundo o estudo, mais de dois milhões de hectares da Amazônia já foram transformados em áreas degradadas pela mineração ilegal — um aumento de 52% em apenas seis anos.
Povos indígenas estão entre os mais afetados

As consequências humanas da expansão criminosa também são devastadoras.
O relatório aponta aumento de assassinatos, intimidação de lideranças indígenas, contaminação alimentar e crises sanitárias em diversas regiões amazônicas.
Na Terra Yanomami, em Roraima, a presença de cerca de 20 mil garimpeiros ilegais provocou explosão de casos de malária, desnutrição e contaminação por mercúrio.
Autoridades brasileiras declararam emergência sanitária em 2023 após os casos de malária crescerem 233% na região.
Estima-se que cerca de 570 crianças yanomami morreram em apenas quatro anos.
Além disso, organizações criminosas vêm infiltrando comunidades locais, cooptando lideranças ou eliminando opositores.
No Equador, por exemplo, a taxa de homicídios em províncias amazônicas saltou de 10 para mais de 50 mortes por 100 mil habitantes entre 2021 e 2024.
O colapso ecológico pode alterar o clima do planeta

Os pesquisadores alertam que a Amazônia se aproxima rapidamente de um ponto de ruptura ecológica.
Se o desmatamento ultrapassar determinados limites, partes da floresta podem perder a capacidade de gerar chuva suficiente para sustentar seu próprio equilíbrio climático.
Isso transformaria áreas da Amazônia em ambientes mais secos e degradados, semelhantes a savanas.
O impacto não ficaria restrito à América do Sul.
A floresta amazônica exerce papel fundamental na regulação do clima global, influenciando chuvas, ciclos atmosféricos e armazenamento de carbono em escala planetária.
Combater o crime exigirá muito mais do que operações policiais
O relatório afirma que respostas baseadas apenas em repressão policial têm se mostrado insuficientes.
Como organizações criminosas frequentemente contam com corrupção política, lavagem de dinheiro e apoio logístico internacional, combater essas redes exige estratégias econômicas e sociais muito mais amplas.
Os pesquisadores defendem investimentos em atividades sustentáveis, como ecoturismo, agroflorestas e manejo florestal comunitário, além de maior integração entre os países amazônicos através da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica.
Também pedem maior responsabilização de empresas internacionais que compram ouro, madeira e commodities ligadas à destruição ambiental.
Segundo o estudo, preservar a Amazônia não depende apenas de proteger árvores. Depende de enfrentar uma economia criminosa transnacional que já se tornou uma das maiores forças de transformação da floresta.
[ Fonte: Wired ]