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O crime organizado está empurrando a Amazônia para um ponto sem retorno — e um quarto da floresta pode entrar em colapso ecológico

Um novo relatório internacional aponta que narcotráfico, mineração ilegal de ouro e corrupção política já dominam grande parte da Amazônia. Especialistas alertam que a floresta tropical mais importante do planeta se aproxima rapidamente de um limite crítico de destruição ambiental.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Durante décadas, a destruição da Amazônia foi associada principalmente ao desmatamento, à expansão agropecuária e às queimadas. Mas um novo relatório mostra que existe outro fator acelerando o colapso da floresta em ritmo alarmante: o avanço do crime organizado.

Segundo a pesquisa “O saque da floresta: blindando a Amazônia contra o crime organizado”, publicada pela organização International Crisis Group, grupos criminosos já operam em pelo menos 67% dos municípios amazônicos de Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela.

O estudo afirma que atividades ligadas ao tráfico de cocaína e à mineração ilegal de ouro estão devastando ecossistemas inteiros, contaminando rios, ampliando a violência e aproximando a Amazônia de um possível colapso ecológico irreversível.

Os pesquisadores alertam que entre 20% e 25% da floresta podem perder sua capacidade natural de regeneração.

A Amazônia virou uma rota estratégica do narcotráfico

O Estudo Afirma Que Atividades Ligadas Ao Tráfico De Cocaína E à Mineração Ilegal De Ouro Estão Devastando Ecossistemas Inteiros
© Juancho Torres/Anadolu via Getty Images

O relatório mostra que mudanças recentes no consumo global de drogas transformaram a Amazônia em uma das principais zonas logísticas do tráfico internacional.

O aumento da demanda por cocaína na Europa, combinado com operações policiais em rotas tradicionais, empurrou organizações criminosas para caminhos mais longos e menos monitorados através da floresta amazônica.

Os rios passaram a funcionar como verdadeiras “rodovias” do crime.

Laboratórios clandestinos espalhados por áreas remotas da Colômbia, Peru, Equador e Bolívia processam folhas de coca em pasta base e cocaína refinada, que depois seguem pelos milhares de afluentes amazônicos até grandes portos brasileiros.

Segundo o relatório, o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital ampliaram enormemente sua presença na Amazônia nos últimos 15 anos.

As organizações controlam rotas estratégicas que levam a portos como Barcarena, no Pará, e Santos, em São Paulo, considerados pontos-chave para o envio de drogas à Europa.

O ouro ilegal virou ainda mais lucrativo que a cocaína

Se o narcotráfico já representava uma ameaça gigantesca, a explosão do preço do ouro agravou ainda mais a situação.

Com a cotação do metal atingindo níveis históricos em 2026, a mineração ilegal se tornou uma das atividades mais lucrativas da região amazônica — em alguns casos, até mais rentável que o tráfico de drogas.

O problema é que a extração ilegal de ouro gera destruição ambiental imediata e extremamente difícil de reverter.

Garimpos clandestinos utilizam mercúrio e cianeto para separar o ouro dos sedimentos, contaminando rios, peixes, solos e comunidades inteiras.

Além disso, enormes áreas de floresta são devastadas para abrir espaço para crateras, pistas clandestinas e acampamentos ilegais.

Segundo o estudo, mais de dois milhões de hectares da Amazônia já foram transformados em áreas degradadas pela mineração ilegal — um aumento de 52% em apenas seis anos.

Povos indígenas estão entre os mais afetados

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© https://x.com/theinformant_x/

As consequências humanas da expansão criminosa também são devastadoras.

O relatório aponta aumento de assassinatos, intimidação de lideranças indígenas, contaminação alimentar e crises sanitárias em diversas regiões amazônicas.

Na Terra Yanomami, em Roraima, a presença de cerca de 20 mil garimpeiros ilegais provocou explosão de casos de malária, desnutrição e contaminação por mercúrio.

Autoridades brasileiras declararam emergência sanitária em 2023 após os casos de malária crescerem 233% na região.

Estima-se que cerca de 570 crianças yanomami morreram em apenas quatro anos.

Além disso, organizações criminosas vêm infiltrando comunidades locais, cooptando lideranças ou eliminando opositores.

No Equador, por exemplo, a taxa de homicídios em províncias amazônicas saltou de 10 para mais de 50 mortes por 100 mil habitantes entre 2021 e 2024.

O colapso ecológico pode alterar o clima do planeta

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© https://x.com/jornalnacional

Os pesquisadores alertam que a Amazônia se aproxima rapidamente de um ponto de ruptura ecológica.

Se o desmatamento ultrapassar determinados limites, partes da floresta podem perder a capacidade de gerar chuva suficiente para sustentar seu próprio equilíbrio climático.

Isso transformaria áreas da Amazônia em ambientes mais secos e degradados, semelhantes a savanas.

O impacto não ficaria restrito à América do Sul.

A floresta amazônica exerce papel fundamental na regulação do clima global, influenciando chuvas, ciclos atmosféricos e armazenamento de carbono em escala planetária.

Combater o crime exigirá muito mais do que operações policiais

O relatório afirma que respostas baseadas apenas em repressão policial têm se mostrado insuficientes.

Como organizações criminosas frequentemente contam com corrupção política, lavagem de dinheiro e apoio logístico internacional, combater essas redes exige estratégias econômicas e sociais muito mais amplas.

Os pesquisadores defendem investimentos em atividades sustentáveis, como ecoturismo, agroflorestas e manejo florestal comunitário, além de maior integração entre os países amazônicos através da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica.

Também pedem maior responsabilização de empresas internacionais que compram ouro, madeira e commodities ligadas à destruição ambiental.

Segundo o estudo, preservar a Amazônia não depende apenas de proteger árvores. Depende de enfrentar uma economia criminosa transnacional que já se tornou uma das maiores forças de transformação da floresta.

 

[ Fonte: Wired ]

 

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