Em seu segundo mandato, Donald Trump voltou a defender a fabricação de veículos estrangeiros em solo americano. Mas, por trás dessa proposta, há um ponto cego que envolve tecnologia, segurança cibernética e uma ameaça que vai muito além da economia. O avanço da indústria automotiva chinesa exige um olhar mais atento — e muito mais cauteloso.
A nova guerra não se trava mais com tanques

No atual cenário geopolítico, a tecnologia é a principal arma estratégica. Os automóveis modernos, que antes eram simples meios de transporte, tornaram-se verdadeiros computadores sobre rodas. Controlados por software, eles interagem com o motorista, a estrada e até com outros veículos. E é justamente nessa conectividade que mora o perigo.
Hoje, marcas como BYD e Xiaomi, da China, dominam a produção de veículos elétricos altamente tecnológicos. Mesmo que produzidos em território americano, esses carros podem carregar códigos embutidos que escapam à supervisão — e qualquer vulnerabilidade representa uma brecha para invasões.
Com o aumento das funções autônomas e da integração com sistemas de infraestrutura urbana, basta um comando remoto malicioso para que milhares de veículos sejam desativados simultaneamente ou levados ao caos em plena estrada.
A cadeia invisível do software automotivo
É fácil imaginar que os riscos possam ser evitados se os carros forem apenas montados nos Estados Unidos. Mas a realidade da cadeia de produção é bem mais complexa. Muitos dos softwares que controlam ignição, freios, direção assistida e comunicação entre veículos não são desenvolvidos pelas montadoras, e sim por fornecedores — alguns deles, com conexões diretas ou indiretas à China.
Mesmo modelos tradicionais como Ford F-150 ou Chevrolet Suburban podem conter trechos de código chinês em seus sistemas. Ainda que inofensivos à primeira vista, esses fragmentos representam potenciais portas de entrada para ataques.
A segurança digital exige, portanto, total transparência sobre os componentes utilizados. É nesse ponto que surge a necessidade de exigir das montadoras uma “Software Bill of Materials” (SBOM), ou lista de materiais de software, revelando cada elemento presente no veículo. Sem isso, o consumidor — e o governo — continuam no escuro.
Carros como armas silenciosas
O Exército de Libertação Popular da China tem um histórico conhecido de explorar estratégias assimétricas, como o conceito de shashoujian, ou “maça assassina” — armas inesperadas que exploram vulnerabilidades do inimigo. Um código disfarçado em um veículo civil pode, se necessário, ser ativado para causar paralisações, confusão ou até acidentes em massa.
O temor não é ficção. Em 2024, o FBI revelou que hackers ligados ao Estado chinês conseguiram infiltrar sistemas de setores críticos da infraestrutura americana, como energia e abastecimento de água. Se isso já aconteceu com redes fixas, por que não com a frota de veículos conectados?
É nesse contexto que o Departamento de Comércio dos EUA, em parceria com o Departamento de Indústria e Segurança, começou a emitir diretrizes para restringir tecnologias automotivas de países considerados hostis.
O que já foi feito — e o que ainda precisa ser feito
Em janeiro de 2025, uma nova regra foi publicada limitando o uso de sistemas de direção autônoma e conectividade desenvolvidos por empresas de países adversários. Um passo importante, sem dúvida, mas ainda insuficiente.
As regulamentações não abrangem toda a cadeia de fornecedores e tampouco exigem a divulgação completa dos componentes de software — o que significa que possíveis ameaças continuam circulando pelas estradas. Uma regra clara que proíba qualquer software de origem chinesa em veículos vendidos nos EUA seria um passo decisivo para proteger a segurança nacional.
Além disso, é fundamental tornar obrigatória a adoção de SBOMs por parte de todas as montadoras, para garantir rastreabilidade e evitar a inserção de código malicioso sem supervisão.
Mais que economia: uma questão de soberania
Donald Trump pode enxergar o incentivo à fabricação de veículos chineses nos EUA como uma jogada comercial, mas trata-se, acima de tudo, de uma decisão geopolítica. Os riscos embutidos em cada linha de código ultrapassam a questão de empregos ou competitividade — envolvem soberania nacional.
A indústria automobilística deixou de ser apenas um pilar econômico. Ela se tornou uma extensão da infraestrutura crítica dos países. E, como tal, deve ser protegida com o mesmo rigor aplicado à segurança energética, hídrica ou militar.
Permitir a entrada de tecnologia chinesa nesse setor, mesmo que sob a promessa de empregos, pode ser o equivalente moderno a abrir os portões para um inimigo invisível. A ameaça já não está no tanque ou no míssil, mas no silêncio dos dados — e no poder que um software oculto pode carregar.
[Fonte: Gazeta do povo]