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Ciência

O coração do Brasil está desaparecendo — e o país pode pagar um preço alto por isso

Um novo relatório revela uma perda chocante no Cerrado brasileiro: 40 milhões de hectares de vegetação nativa desapareceram em apenas quatro décadas. O avanço do agronegócio, da energia solar e o esgotamento da água ameaçam transformar o segundo maior bioma do país em uma terra exaurida.
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Tempo de leitura: 2 minutos

O Cerrado é o berço das águas do Brasil e um dos biomas mais ricos em biodiversidade do planeta. Mas, nas últimas décadas, o equilíbrio que sustentava suas paisagens e rios entrou em colapso silencioso. Um levantamento inédito da rede MapBiomas mostra que a devastação avança mais rápido do que as políticas de preservação — e já coloca o futuro ambiental do país em risco.

Um bioma em retração acelerada

Entre 1985 e 2024, o Cerrado perdeu 40,5 milhões de hectares de vegetação nativa, o equivalente a quase um terço de sua área original. Hoje, menos da metade do bioma ainda mantém cobertura natural. O restante virou lavouras, pastagens ou áreas industriais.

Segundo Bárbara Costa, pesquisadora do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), as décadas de 1980 e 1990 marcaram o ponto de virada: “A destruição da vegetação foi intensa. Desde então, o Cerrado virou o coração da produção de grãos do país”.

Soja, milho e algodão tomaram conta de áreas onde antes floresciam milhares de espécies únicas. O uso intensivo do solo, aliado à mecanização e à homogeneização do território, vem comprometendo a regeneração natural e os ciclos de chuva.

Matopiba: o epicentro da destruição

O estudo aponta a região de Matopiba — que abrange Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia — como o principal foco da devastação. Embora ocupe apenas 30% do Cerrado, ela concentra 39% de toda a perda ambiental desde 1985.

Nos últimos dez anos, 73% do desmatamento do bioma ocorreu nessa área, impulsionado por grandes empreendimentos agrícolas e, mais recentemente, por usinas solares.
A área agrícola cresceu 24 vezes em quatro décadas, alcançando 5,5 milhões de hectares. Além disso, as plantas fotovoltaicas aumentaram 1.273% desde 2016 — muitas substituindo vegetação nativa.

O colapso das águas

O Cerrado registrou em 2024 sua maior área de água em quase 40 anos — 1,6 milhão de hectares. Mas o dado é enganoso: 60% dessas águas são artificiais, formadas por represas, hidrelétricas e tanques de mineração.
Enquanto isso, as águas naturais diminuíram 27,8%, e nove em cada dez bacias perderam parte de seus mananciais.

“A pressão sobre a água é enorme”, alerta Ane Alencar, diretora científica do IPAM. “Mais da metade do Cerrado está dentro de propriedades rurais. É urgente produzir sem destruir.”

O futuro em risco

O Cerrado abriga mais de 11 mil espécies de plantas e regula o fluxo hídrico de grandes rios como o São Francisco, o Paraná e o Amazonas. Sua destruição altera o clima regional, intensifica os incêndios e ameaça a segurança alimentar do país.

O relatório do MapBiomas é um alerta: sem ação imediata — com restauração ambiental, fiscalização e incentivo à produção sustentável — o bioma pode colapsar em poucas décadas.
Proteger o Cerrado não é apenas salvar árvores; é preservar o equilíbrio de todo o Brasil.

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