Na Coreia do Sul, educar um filho não é apenas um dever: é uma corrida implacável. Famílias sacrificam tempo, dinheiro e até qualidade de vida para garantir que seus filhos tenham as melhores chances em um sistema educacional extremamente competitivo. Com aulas particulares se tornando mais importantes que a escola tradicional, a pressão sobre crianças e pais chegou a níveis alarmantes — e o impacto disso começa a preocupar toda a sociedade.
Uma nação onde criar filhos virou luxo

Em grandes cidades como Seul ou Daejeon, é difícil caminhar pelas ruas sem se deparar com propagandas de hagwon — academias privadas especializadas em reforço escolar. Essas instituições moldam o cotidiano de milhões de estudantes e movimentam cifras astronômicas. Em 2020, a Coreia do Sul contava com mais de 73 mil dessas academias. Apesar de sua onipresença, elas simbolizam um desafio preocupante: o altíssimo custo de criar uma criança em um país com a menor taxa de natalidade do mundo.
Segundo estudos, a Coreia do Sul é hoje o país mais caro para se criar um filho. Estima-se que o custo total até os 18 anos alcance 365 milhões de wons (cerca de R$ 1,4 milhão), o que representa quase oito vezes o PIB per capita. Com uma taxa de fecundidade de apenas 0,72 filho por mulher, o país enfrenta uma emergência demográfica, com consequências graves para sua economia e estrutura social.
A educação privada como prioridade absoluta

Mesmo com investimentos públicos de mais de US$ 280 bilhões ao longo de quase duas décadas para reverter esse cenário, o gasto das famílias com educação continua crescendo. Em 2022, os sul-coreanos gastaram cerca de R$ 115 bilhões com aulas particulares — o equivalente a mais de R$ 2.300 por criança por mês.
Esse número é ainda mais expressivo em famílias com maior poder aquisitivo, onde o valor mensal pode ultrapassar R$ 4.800. O mais surpreendente é que, em muitos casos, o investimento em educação privada supera os gastos com alimentação e moradia. E essa realidade não se limita às classes mais altas: mesmo nas famílias de baixa renda, as aulas extracurriculares ocupam o topo das prioridades.
A estrutura por trás da pressão
A popularidade dos hagwon tem raízes históricas e culturais. Desde o século XIX, essas academias se consolidaram como uma extensão essencial da educação formal. Hoje, oferecem de tudo: inglês, matemática, música, artes marciais e até etiqueta. Em Seul, há mais de 24 mil dessas instituições — o triplo do número de lojas de conveniência.
O sistema gira em torno do temido suneung, o exame nacional que define a entrada nas universidades de elite. Pais e alunos veem no bom desempenho acadêmico a chave para um futuro estável. Até mesmo crianças em idade pré-escolar participam dessa maratona. Um estudo de 2017 revelou que 83,6% das crianças de cinco anos e 35,5% das de dois anos já frequentavam aulas particulares.
O impacto emocional e financeiro
A pressão para não ficar para trás é imensa. Kim, uma mãe de Seul entrevistada pelo The Korea Times, resume bem o dilema: “As aulas particulares são o maior peso no nosso orçamento. Tento reduzir, mas cada uma parece essencial”. Seu filho, de 13 anos, fazia aulas de inglês, matemática, escrita e taekwondo. Mesmo assim, ela dizia que outras famílias da vizinhança ofereciam ainda mais.
Esse comportamento é comum. A estudante Yerim Kim, por exemplo, reconhece que sente que está perdendo algo se não seguir o mesmo caminho: “Todo mundo vai para o hagwon. Se eu não for, parece que estou ficando para trás”.
Além disso, para muitos pais que trabalham em tempo integral, as academias funcionam como forma de conciliação entre trabalho e cuidado com os filhos. Algumas funcionam até às 22h. O governo, ciente dessa demanda, começou a ampliar a oferta de programas extracurriculares nas escolas públicas, com funcionamento até as 20h para estudantes do ensino fundamental.
Uma obsessão com consequências nacionais
O modelo educacional da Coreia do Sul começa a gerar polêmica. A pressão por desempenho, os custos excessivos e o desgaste emocional vêm sendo criticados até por especialistas. A desigualdade de oportunidades é um dos pontos mais debatidos: quem não pode pagar pelos hagwon acaba partindo de uma posição de desvantagem nos exames que definem o futuro acadêmico e profissional.
Regulamentações já foram tentadas, mas com pouco sucesso. Algumas academias são acusadas de explorar a ansiedade dos pais, prometendo resultados impossíveis e incentivando um ciclo de dependência que começa na infância.
Por outro lado, muitos afirmam que, da forma como o sistema está estruturado, os alunos não conseguem se preparar sozinhos para os exames. Os hagwon oferecem materiais e métodos que ultrapassam os recursos disponíveis na escola pública.
Um futuro em xeque
A obsessão sul-coreana por educação de excelência, embora compreensível, levanta questões sérias sobre sustentabilidade social, equidade e saúde mental. A busca por um “futuro promissor” pode estar minando justamente as bases necessárias para que ele aconteça: a estabilidade familiar, a qualidade de vida e o desejo de ter filhos.
A Coreia do Sul, que um dia se destacou por sua impressionante ascensão educacional e tecnológica, agora enfrenta o desafio de equilibrar desempenho e bem-estar. O dilema é claro: manter a corrida pelo sucesso ou reformular o sistema para que ele seja mais justo, acessível e humano. Enquanto isso, pais como Kim seguem tentando fazer o impossível para não deixar seus filhos para trás.
[Fonte: Terra]