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Tecnologia

O dinheiro está mudando e uma disputa silenciosa pode definir quem controlará o futuro das moedas

O avanço das moedas digitais está transformando o sistema financeiro mundial. Enquanto Estados Unidos e Europa seguem caminhos diferentes, bancos e governos disputam o controle do dinheiro do futuro.
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Tempo de leitura: 4 minutos

O dinheiro está passando por uma transformação que vai muito além do desaparecimento das cédulas e moedas. Criptomoedas, stablecoins e sistemas de pagamento instantâneo estão modificando a circulação de recursos em todo o planeta. Entretanto, uma questão fundamental permanece: quem terá o poder de emitir, controlar e garantir a estabilidade dessas novas formas de dinheiro? A resposta envolve tecnologia, bancos centrais e uma disputa geopolítica cada vez mais importante.

O dinheiro já é digital, mas nem todo mundo percebeu

A transformação digital do sistema financeiro começou muito antes da popularização das criptomoedas.

Atualmente, grande parte do dinheiro utilizado na economia existe apenas como registros eletrônicos em instituições bancárias. Transferências, pagamentos com cartões e operações financeiras acontecem sem a circulação de dinheiro físico.

Na zona do euro, por exemplo, a participação do dinheiro em espécie nas transações cotidianas caiu de 68%, em 2019, para 40%, em 2025.

Esses números, apresentados em uma análise publicada pelo jornal El País, mostram que a digitalização já modificou profundamente os hábitos financeiros.

A novidade está na chegada de tecnologias que permitem movimentar ativos digitais por novas infraestruturas, incluindo redes baseadas em blockchain.

Entretanto, a tecnologia utilizada para transferir dinheiro não determina, por si só, sua segurança ou estabilidade.

Stablecoins podem ampliar o domínio mundial do dólar

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© Pexels

Entre as principais inovações estão as stablecoins, criptomoedas desenvolvidas para manter seu valor próximo ao de uma moeda tradicional, geralmente o dólar americano.

Diferentemente do bitcoin, cujo preço pode variar intensamente, esses ativos procuram oferecer maior estabilidade por meio de reservas financeiras e outros mecanismos.

O problema é que essa estabilidade depende da qualidade dos ativos utilizados como garantia e da capacidade do emissor de honrar seus compromissos.

Segundo uma análise do Banco de Compensações Internacionais (BIS), aproximadamente 98% do valor das stablecoins está denominado em dólares.

Essa concentração pode fortalecer a influência internacional da moeda americana, principalmente em países onde a população procura alternativas às moedas locais.

Por outro lado, a expansão desses ativos também pode aumentar a dependência financeira de economias emergentes em relação ao dólar.

Estados Unidos e Europa apostam em caminhos diferentes

A disputa pelo dinheiro digital está produzindo estratégias distintas entre as principais economias.

Nos Estados Unidos, a orientação do governo federal favorece o desenvolvimento de stablecoins emitidas por empresas privadas, em vez da criação de um dólar digital de varejo pelo banco central.

A estratégia pode ampliar a demanda por títulos do Tesouro americano, frequentemente utilizados como parte das reservas que sustentam essas moedas digitais.

Na Europa, o caminho é diferente.

O Banco Central Europeu trabalha no desenvolvimento de um euro digital, concebido como uma forma eletrônica de dinheiro público que poderia complementar as cédulas e moedas tradicionais.

A proposta também pretende reduzir a dependência europeia de empresas estrangeiras responsáveis por infraestruturas de pagamento.

Segundo o Conselho da União Europeia, o euro digital não foi concebido para substituir o dinheiro físico, mas para oferecer uma alternativa adicional de pagamento.

Bancos tradicionais também querem participar da transformação

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© Pexels

A digitalização não representa apenas uma disputa entre governos e empresas de criptomoedas.

Os bancos comerciais também estão desenvolvendo soluções próprias, incluindo os chamados depósitos tokenizados.

Nesse modelo, valores depositados em instituições financeiras são representados digitalmente por tokens, permitindo operações em novas plataformas tecnológicas.

A principal diferença em relação às stablecoins está na estrutura jurídica e financeira.

Enquanto os depósitos tokenizados representam obrigações de bancos supervisionados, as stablecoins são emitidas por entidades privadas e podem apresentar diferentes mecanismos de proteção.

Em setembro de 2026, um grupo de 21 instituições financeiras internacionais, incluindo grandes bancos americanos e europeus, anunciou planos para desenvolver uma solução baseada em stablecoins.

A iniciativa demonstra que o setor bancário tradicional também pretende participar da reorganização do sistema monetário.

O que muda para o Brasil com o avanço do dinheiro digital?

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© YouTube

O Brasil já possui uma experiência importante de digitalização financeira com o Pix, que tornou as transferências instantâneas parte da rotina de milhões de pessoas.

Entretanto, o Pix não é uma criptomoeda nem uma moeda digital independente. Trata-se de uma infraestrutura de pagamentos que movimenta valores denominados em reais.

A diferença é importante porque demonstra que a inovação financeira não depende necessariamente da criação de novas moedas.

No cenário internacional, a expansão das stablecoins pode facilitar determinadas transferências entre países, mas também levantar preocupações relacionadas à regulamentação, à proteção dos usuários e à soberania monetária.

Para economias como a brasileira, o desafio será aproveitar os benefícios das novas tecnologias sem comprometer a estabilidade do sistema financeiro.

O futuro do dinheiro depende mais da confiança do que da tecnologia

Apesar das inovações, uma questão continua central: o dinheiro precisa ser confiável.

Em relatório divulgado em 2026, o Banco de Compensações Internacionais destacou que novas tecnologias podem melhorar a eficiência das transações, mas não substituem a necessidade de instituições sólidas e regras claras.

A entidade também alertou para riscos associados à expansão das stablecoins, incluindo dificuldades de conversibilidade, fragmentação dos sistemas de pagamento e possíveis impactos sobre a estabilidade financeira.

O cenário mais provável não envolve o desaparecimento imediato dos bancos ou das moedas tradicionais, mas a convivência de diferentes instrumentos digitais.

A verdadeira revolução do dinheiro não será apenas tecnológica. Ela também determinará quem terá autoridade para emitir moedas, proteger os usuários e estabelecer as regras da economia digital.

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