O universo está repleto de objetos capazes de produzir raios X. Buracos negros, estrelas de nêutrons e sistemas binários podem liberar enormes quantidades de energia e deixar assinaturas bastante reconhecíveis. Mas algumas fontes parecem estar escondidas em uma região pouco explorada do espectro. Agora, uma análise de dados do observatório Chandra revelou dezenas delas — e suas características levantam uma possibilidade intrigante: talvez estejamos diante de uma população inteira de objetos que passou despercebida por décadas.
O sinal que apareceu onde quase ninguém estava procurando
A descoberta começou com algo que parecia contraditório.
Os objetos aparecem claramente quando o observatório espacial Chandra analisa raios X de energia muito baixa. Porém, quando os pesquisadores observam faixas de energia mais elevadas, essas mesmas fontes praticamente desaparecem.
A característica central está abaixo de 0,3 keV, uma região particularmente difícil de investigar.
Isso cria uma situação incomum. Para uma fonte de raios X, esses objetos são extremamente “frios” em termos de energia. Ao mesmo tempo, alguns deles apresentam luminosidades próximas de 10³⁸ ergs por segundo, valores comparáveis aos de algumas das fontes de raios X mais poderosas encontradas fora dos centros das galáxias.
Existe ainda outro detalhe.
Grande parte da energia parece escapar na forma de radiação ultravioleta extrema. Em outras palavras, não se trata simplesmente de uma fonte fraca que passou despercebida. São objetos muito energéticos, mas que concentram sua emissão em uma região do espectro que é particularmente difícil de observar.
Foi essa combinação incomum que levou os pesquisadores a tratá-los como uma população distinta, chamada de fontes de raios X hipersuaves (hypersoft X-ray sources).
As 84 fontes apareceram em seis galáxias diferentes
Para descobrir se o fenômeno era isolado, Mustafa Muhibullah e Jimmy A. Irwin, da Universidade do Alabama, junto com Rosanne Di Stefano, do Centro de Astrofísica Harvard-Smithsonian, vasculharam arquivos públicos do Chandra.
A busca terminou com 84 fontes distribuídas por seis galáxias relativamente próximas.
Duas delas são espirais: M31, a galáxia de Andrômeda, e M101, conhecida como galáxia do Cata-Vento. As outras quatro são galáxias elípticas.
Essa distribuição é importante porque os objetos não aparecem exclusivamente em um ambiente estelar específico.
Alguns estão localizados em regiões onde novas estrelas estão nascendo. Outros aparecem em ambientes dominados por estrelas muito antigas.
Isso torna difícil atribuir todas as fontes a um único processo.
Em vez de uma população perfeitamente uniforme, os pesquisadores consideram possível que diferentes tipos de sistemas estejam produzindo sinais muito semelhantes.
E é justamente aí que a descoberta fica ainda mais interessante.
Uma única explicação pode não ser suficiente
Os astrônomos ainda não sabem exatamente o que produz todas essas fontes. Uma das possibilidades envolve anãs brancas absorvendo matéria de estrelas companheiras.
Outras podem ser sistemas que passaram por uma nova ou até sistemas binários envolvendo buracos negros em processo de acreção.
Essa variedade ajudaria a explicar por que objetos com características observacionais parecidas estão espalhados por ambientes galácticos tão diferentes.
Existe ainda uma hipótese particularmente relevante para a cosmologia.
Algumas dessas fontes poderiam estar relacionadas a sistemas que, em determinadas condições, terminariam produzindo supernovas do tipo Ia. Essas explosões são extremamente importantes porque funcionam como ferramentas para medir distâncias cósmicas e tiveram papel fundamental na descoberta da expansão acelerada do universo.
Isso significa que compreender essas fontes hipersuaves pode ter consequências que vão muito além de simplesmente adicionar uma nova categoria ao catálogo de objetos espaciais.
O universo pode estar cheio delas — e nós simplesmente não conseguíamos enxergá-las
Existe uma explicação plausível para essas fontes terem permanecido escondidas durante tanto tempo.
A radiação ultravioleta extrema e os raios X de baixa energia são facilmente absorvidos por gás e poeira interestelar. Isso cria uma espécie de “ponto cego” para os observatórios, dificultando a detecção mesmo quando a fonte é extremamente luminosa.
Por isso, as 84 encontradas podem representar apenas uma pequena amostra de uma população muito maior.
Os pesquisadores também levantam a possibilidade de que essa classe de objetos tenha um papel importante na ionização do gás das galáxias, devido à quantidade de radiação ultravioleta extrema que produz.
A descoberta, portanto, não é apenas uma coleção de 84 pontos estranhos em imagens do Chandra. Ela pode indicar que existe uma população inteira de sistemas energéticos escondida em uma região do espectro que, durante décadas, foi especialmente difícil de observar.
É justamente por isso que esses objetos parecem tão diferentes: não necessariamente porque sejam completamente desconhecidos pela física, mas porque podem combinar processos já conhecidos de uma maneira que nossos levantamentos anteriores não conseguiam enxergar.
Os resultados foram publicados em 9 de setembro de 2026 na revista Nature Astronomy.