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Ciência

O que acontece antes de uma galáxia “morrer”? O Euclid encontrou uma pista surpreendente

Durante décadas, astrônomos dividiram as galáxias entre as que formam estrelas e as que parecem inativas. Os primeiros dados do Euclid sugerem uma história muito mais gradual.
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Tempo de leitura: 4 minutos

No universo, até mesmo as galáxias parecem ter um ciclo de vida. Algumas brilham intensamente enquanto produzem novas estrelas; outras assumem tons avermelhados e parecem ter encerrado essa fase. Mas essa divisão tradicional pode estar escondendo uma transformação muito mais lenta. Observações recentes estão permitindo acompanhar esse processo com outro nível de detalhe — e os resultados começam a mudar a maneira como os astrônomos descrevem o envelhecimento das galáxias.

A cor de uma galáxia pode esconder o que está acontecendo

Durante muito tempo, a aparência das galáxias serviu como uma espécie de atalho para entender sua atividade. As chamadas galáxias azuis costumam apresentar formação estelar intensa, enquanto as vermelhas são dominadas por estrelas mais antigas e produzem poucas estrelas novas.

A lógica parece simples, mas existe uma armadilha.

Estrelas muito massivas são extremamente brilhantes e emitem grande parte de sua energia em comprimentos de onda azulados. O problema é que elas também vivem pouco em escala astronômica: algumas desaparecem depois de apenas alguns milhões de anos.

Isso significa que uma mudança no ritmo de nascimento de estrelas pode alterar a aparência de uma galáxia relativamente rápido. Ela pode ficar mais vermelha sem que a formação estelar tenha simplesmente desaparecido de uma hora para outra.

É justamente essa diferença que começa a ganhar importância. Em vez de imaginar uma fronteira rígida entre galáxias “vivas” e “mortas”, os pesquisadores estão encontrando sinais de uma espécie de processo de envelhecimento.

E os primeiros dados do telescópio espacial Euclid ajudam a colocar números nessa transformação.

O Euclid encontrou uma pista que muda essa divisão

Para investigar a evolução das galáxias, pesquisadores combinaram observações do Euclid com outros dados e analisaram como a formação estelar mudou em diferentes períodos de tempo.

A comparação considerou aproximadamente os últimos 100 milhões e 1 bilhão de anos. O objetivo era distinguir entre galáxias que simplesmente estão diminuindo sua atividade aos poucos e aquelas que passaram por uma interrupção muito mais abrupta.

O resultado chama atenção porque a maior parte das galáxias analisadas não se encaixa na ideia de uma morte repentina.

Entre as galáxias próximas que estavam acima do limite de massa estudado, aproximadamente 68% a 72% foram classificadas como ageing, ou seja, sistemas cujo ritmo de formação de estrelas mudou progressivamente.

Uma parcela menor, entre 8% e 17%, apresentou sinais de quenching: uma redução recente e acentuada na formação estelar. Já cerca de 14% a 19% foi classificada como “retirada”, formada principalmente por estrelas antigas e com atividade extremamente baixa.

Esses números apontam para uma possibilidade interessante: para muitas galáxias, o envelhecimento pode ser mais importante do que uma suposta “morte”.

O que faz uma galáxia perder a capacidade de formar estrelas?

Existe, porém, uma questão fundamental: se uma galáxia está envelhecendo, o que está acontecendo com o combustível que permite seu crescimento?

A resposta está principalmente no gás frio. É dele que surgem as condições necessárias para formar novas estrelas. Quando esse material deixa de chegar às regiões adequadas, o nascimento de estrelas começa a diminuir.

O processo pode acontecer de diferentes maneiras.

Um buraco negro supermassivo ativo, por exemplo, pode liberar enormes quantidades de energia e aquecer ou expulsar o gás. Em aglomerados de galáxias, o ambiente extremamente quente também pode remover esse material enquanto uma galáxia atravessa o espaço em alta velocidade. É assim que surgem algumas impressionantes galáxias conhecidas como “galáxias medusa”.

Mas nem sempre existe um evento dramático.

Uma galáxia também pode simplesmente receber cada vez menos gás novo. Nesse cenário, seu estoque vai sendo consumido gradualmente, enquanto a produção de estrelas diminui.

É justamente essa diferença entre uma interrupção violenta e um declínio lento que os novos dados ajudam a investigar.

O próximo passo será observar essa história em uma escala gigantesca

O estudo atual ainda representa apenas uma pequena amostra do que o Euclid poderá revelar. A missão da Agência Espacial Europeia foi projetada para observar bilhões de galáxias e ajudar a reconstruir como o universo evoluiu em grandes escalas.

Com uma quantidade muito maior de observações, os astrônomos poderão investigar se esse padrão se mantém em diferentes tipos de galáxias, massas e ambientes cósmicos.

Muitas galáxias não estão realmente “mortas”; elas estão envelhecendo lentamente, reduzindo sua capacidade de formar estrelas sem necessariamente sofrer uma interrupção repentina.

Isso transforma a velha divisão entre galáxias azuis e vermelhas em algo muito mais parecido com um espectro de evolução. Algumas diminuem sua atividade pouco a pouco; outras sofrem um bloqueio mais brusco; e algumas já passaram há muito tempo para uma fase dominada por estrelas antigas.

Com o Euclid começando a ampliar esse retrato, a “morte” de uma galáxia pode estar deixando de parecer um acontecimento isolado e passando a ser entendida como parte de um processo muito mais longo.

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