Durante quase um século, acreditamos que o universo é dominado por forças invisíveis que desafiam a física conhecida. Mas um novo estudo desafia essa ideia de forma radical. O físico Rajendra Gupta, da Universidade de Ottawa, afirma que talvez tudo o que chamamos de “matéria escura” e “energia escura” seja apenas um truque do cosmos — resultado de constantes físicas que mudam lentamente à medida que o universo envelhece.
O universo que enfraquece com o tempo

A hipótese de Gupta, publicada na revista Galaxies, propõe que as forças fundamentais da natureza — como a gravidade e a velocidade da luz — não são fixas, mas se modificam de forma quase imperceptível ao longo de bilhões de anos. Esse enfraquecimento, diz ele, cria a ilusão de que existe uma energia misteriosa acelerando a expansão do universo e uma gravidade adicional mantendo as galáxias coesas.
Em outras palavras, o que hoje chamamos de energia e matéria escuras seriam apenas efeitos secundários do envelhecimento do cosmos. “As forças do universo perdem intensidade à medida que ele se expande”, explica Gupta. “Essas variações produzem fenômenos que confundimos com componentes invisíveis.”
Constantes mutantes e a força “alfa”
Para sustentar sua teoria, Gupta introduziu um novo parâmetro chamado alfa (α), que mede o quanto essas constantes físicas variam em diferentes regiões do espaço. Em áreas densas — como o centro das galáxias — o valor de alfa é quase nulo, e a física tradicional funciona normalmente. Já nas bordas galácticas, onde há menos matéria, alfa aumenta e cria uma força gravitacional extra, explicando por que as estrelas giram mais rápido do que as leis de Newton preveem.
Essa ideia resolve um dos grandes mistérios da astrofísica: as chamadas “curvas de rotação planas”, observadas desde os anos 1930, que levaram à hipótese da matéria escura.
Um modelo que une o micro e o macro
Enquanto o modelo cosmológico padrão (ΛCDM) usa equações diferentes para escalas galácticas e cósmicas, a proposta de Gupta emprega uma única fórmula para descrever ambas. Ele testou a teoria com dados reais de sete galáxias da base SPARC, uma das mais confiáveis do mundo, e obteve resultados consistentes.
Segundo o físico, isso indica que alfa não é apenas um truque matemático, mas uma propriedade física real que emerge naturalmente do envelhecimento do universo. Além disso, o modelo prevê que, no universo primordial, onde havia mais matéria visível, esses efeitos eram menores — algo que coincide com observações recentes feitas pelo telescópio James Webb.
Um universo duas vezes mais velho
Uma das consequências mais impressionantes da teoria é a reavaliação da idade do universo: em vez de 13,8 bilhões de anos, ele teria 26,7 bilhões. Essa nova escala de tempo ajudaria a explicar por que o telescópio Webb encontra galáxias surpreendentemente maduras em períodos muito antigos do cosmos.
“Talvez não estejamos vendo o impossível”, diz Gupta. “Talvez o universo simplesmente seja mais velho do que imaginamos.”
Se correta, a proposta desafia décadas de esforços e bilhões de dólares investidos na busca por partículas invisíveis que poderiam nem existir.
Ceticismo e controvérsias
Nem todos estão convencidos. O astrofísico Brian Keating, da Universidade da Califórnia, alerta: “Afirmações extraordinárias exigem provas extraordinárias.” Outros cientistas apontam limitações: Gupta analisou poucas galáxias, simplificou suas formas e dependeu de estimativas incertas de massa e luminosidade.
Além disso, medições precisas de quasares distantes indicam que as constantes fundamentais parecem estáveis ao longo do tempo, o que enfraquece a hipótese de variação. Ainda assim, Gupta pretende aplicar seu modelo a fenômenos mais complexos, como lentes gravitacionais e aglomerados de galáxias.
Entre a ousadia e a revolução
A ideia de que a matéria escura pode não existir não é nova — teorias como MOND (Dinâmica Newtoniana Modificada) já tentaram o mesmo caminho. Mas a proposta de Gupta, que unifica escalas cósmicas sob um único princípio, reacende o debate.
Se confirmada, seria uma revolução comparável à de Einstein. Se refutada, ainda assim servirá para testar os limites da cosmologia moderna.
“A explicação mais simples pode ser a mais elegante”, conclui Gupta. “Talvez o universo só esteja nos pregando uma peça.”
[ Fonte: DW ]