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Ciência

O fungo que está fazendo pessoas enxergarem “humanos minúsculos” intriga cientistas no mundo inteiro

Pacientes de diferentes países começaram a relatar exatamente a mesma visão perturbadora após consumir um tipo específico de cogumelo. Agora, pesquisadores tentam entender por que essas alucinações parecem seguir um padrão quase impossível de explicar.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Durante décadas, médicos trataram certos relatos como episódios raros e isolados. Pessoas descreviam pequenas figuras caminhando pelas paredes, atravessando portas ou observando silenciosamente os ambientes ao redor. O detalhe inquietante é que muitos desses pacientes jamais tiveram contato entre si — e ainda assim relatavam experiências praticamente idênticas. Agora, uma investigação científica está começando a conectar essas visões a um fungo pouco conhecido que desafia tudo o que a neurociência entende sobre alucinações.

Um fungo comum que esconde um efeito extremamente incomum

Em algumas regiões da Ásia, determinados cogumelos fazem parte da culinária local há gerações. Eles são vendidos em mercados, preparados em restaurantes e consumidos principalmente durante períodos de chuva. Mas existe um detalhe que muitos moradores já conhecem há anos: se preparados da forma errada, podem provocar efeitos neurológicos extremamente estranhos.

Foi exatamente isso que chamou a atenção de médicos no sul da China. Pacientes intoxicados começaram a chegar aos hospitais descrevendo cenas quase idênticas. Pequenos seres humanos apareciam andando pelo chão, escalando móveis ou observando o ambiente em silêncio. Em muitos casos, as figuras eram tão detalhadas que pareciam reais.

O mais curioso é que as vítimas não relatavam visões abstratas ou psicodélicas tradicionais. Nada de cores distorcidas ou padrões geométricos. O cérebro parecia produzir sempre o mesmo tipo de imagem: humanos minúsculos em movimento constante.

A espécie associada ao fenômeno é chamada Lanmaoa asiatica, um cogumelo identificado oficialmente há poucos anos. Apesar disso, os relatos envolvendo esse fungo circulam há décadas em diferentes comunidades asiáticas.

Em alguns restaurantes locais, o cuidado chega ao extremo de impedir que os clientes comam o prato antes de um tempo mínimo de cozimento. Em certas regiões, temporizadores são colocados diretamente sobre as mesas para evitar intoxicações.

E existe um motivo para tanto cuidado.

Humanos Minúsculos1
© Colin Domnauer

A ciência não consegue explicar por que as alucinações são tão parecidas

Na psiquiatria, esse tipo de visão recebe o nome de “alucinação liliputiana”, referência aos habitantes minúsculos do livro As Viagens de Gulliver. O fenômeno é considerado extremamente raro e, até hoje, poucos casos foram documentados na medicina moderna.

O problema é que quase nunca essas alucinações seguem um padrão tão consistente.

Substâncias psicodélicas normalmente provocam experiências diferentes dependendo da pessoa, do ambiente e até do estado emocional do paciente. Com esse fungo, porém, acontece algo completamente diferente: indivíduos de culturas distintas descrevem praticamente as mesmas figuras.

Registros semelhantes apareceram também nas Filipinas e em Papua-Nova Guiné, separados por milhares de quilômetros e contextos culturais totalmente diferentes. Ainda assim, os relatos continuam assustadoramente parecidos.

Foi isso que levou pesquisadores a investigar o fungo mais profundamente.

O micologista Colin Domnauer, da Universidade de Utah, passou anos analisando relatos médicos e culturais ligados ao fenômeno. Inicialmente, acreditava que muitas histórias fossem apenas folclore local. Mas a repetição dos sintomas começou a chamar atenção demais para ser ignorada.

Durante uma expedição realizada em mercados asiáticos, o pesquisador fez uma pergunta direta aos vendedores: “Qual cogumelo faz as pessoas enxergarem pessoas pequenas?”. Segundo ele, a reação costumava ser sempre a mesma — primeiro risos, depois a indicação exata da espécie correta.

O composto responsável ainda é desconhecido

Após análises laboratoriais, os cientistas confirmaram que os relatos realmente estavam ligados ao Lanmaoa asiatica. E os testes começaram a revelar algo ainda mais intrigante.

Os compostos químicos do fungo não se comportam como substâncias psicodélicas tradicionais, como LSD ou psilocibina. Em experimentos neurológicos, os padrões cerebrais observados pareciam totalmente diferentes do que a ciência costuma encontrar em outros alucinógenos conhecidos.

Além disso, os efeitos podem durar entre 12 e 24 horas. Em alguns casos, pacientes precisaram permanecer hospitalizados durante dias até que os sintomas desaparecessem completamente.

Esse talvez seja um dos motivos pelos quais o fungo nunca desenvolveu uma cultura recreativa ao redor dele. Diferente de outras substâncias alucinógenas, ninguém parece consumi-lo propositalmente em busca da experiência.

Os cientistas acreditam que compreender esse mecanismo pode ajudar a desvendar algo muito maior: como o cérebro humano constrói imagens visuais complexas durante episódios alucinatórios.

E existe outro detalhe importante. Muitos casos espontâneos de alucinações liliputianas aparecem associados a doenças neurológicas graves. Se os pesquisadores conseguirem identificar exatamente qual molécula produz esse efeito tão específico, talvez seja possível entender melhor certas condições cerebrais ainda pouco compreendidas.

No fim das contas, o caso funciona como um lembrete desconfortável. A ciência conhece apenas uma pequena fração dos fungos existentes no planeta. Em cada floresta pode existir uma combinação química completamente desconhecida, capaz de alterar a mente humana de maneiras que ainda parecem saídas de histórias de ficção.

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