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Ciência

O Homem de Gelo passou 5.300 anos congelado nos Alpes. Agora cientistas descobriram que algo dentro dele ainda está vivo

Encontrado por acaso em uma geleira dos Alpes em 1991, Ötzi se tornou uma das múmias mais estudadas da história. Três décadas depois, pesquisadores descobriram algo surpreendente em seu interior: microrganismos que sobreviveram por mais de cinco mil anos e que ainda apresentam sinais de atividade biológica.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Poucas descobertas arqueológicas causaram tanto impacto quanto a de Ötzi, o famoso Homem de Gelo encontrado nos Alpes de Ötztal, na fronteira entre Itália e Áustria. Preservado naturalmente pelo gelo por mais de cinco milênios, ele se tornou uma cápsula do tempo da Idade do Cobre. Mas um novo estudo sugere que Ötzi é muito mais do que um registro arqueológico extraordinário. Segundo pesquisadores, seu corpo abriga formas de vida microscópicas que sobreviveram ao longo de toda essa jornada congelada.

O cadáver mais famoso da Europa guarda um ecossistema próprio

Homem Vivo 1
© Eurac Research | Andrea De Giovanni

Quando dois alpinistas alemães encontraram o corpo em 1991, acreditaram estar diante de uma vítima recente de acidente. Rapidamente ficou claro que a realidade era muito mais impressionante.

Análises posteriores mostraram que Ötzi viveu por volta de 3.255 a.C. e morreu aos 46 anos após sofrer uma hemorragia provocada por uma flecha que atingiu seu ombro esquerdo.

Desde então, ele se transformou em um dos indivíduos pré-históricos mais estudados do planeta.

Agora, uma equipe da Eurac Research revelou que o interior da múmia abriga diversas espécies de microrganismos, incluindo leveduras adaptadas ao frio extremo que podem ter permanecido adormecidas por mais de 5.300 anos.

Microrganismos sobreviveram por milênios

Os cientistas identificaram gêneros de leveduras como Glaciozyma, Goffeauzyma, Mrakia e Phenoliferia.

O mais surpreendente é que algumas dessas leveduras demonstraram atividade metabólica em laboratório, sugerindo que continuavam viáveis após milhares de anos congeladas.

Além dos fungos, os pesquisadores encontraram bactérias intestinais anaeróbicas que faziam parte do microbioma original de Ötzi. Entre elas estão espécies como Romboutsia hominis, Clostridium moniliforme e Ruminococcus bromii.

Esses microrganismos auxiliavam na digestão dos alimentos consumidos pelo Homem de Gelo durante sua vida.

A descoberta transforma a múmia em algo ainda mais extraordinário: além de um vestígio arqueológico, ela funciona como um ecossistema preservado ao longo dos milênios.

O que isso pode ensinar sobre vida fora da Terra

As implicações da descoberta vão muito além da arqueologia.

Se determinados microrganismos conseguem sobreviver por milhares de anos em condições extremas de frio, baixa disponibilidade de nutrientes e isolamento, isso reforça a possibilidade de formas de vida microscópicas persistirem em ambientes semelhantes fora da Terra.

Locais como regiões permanentemente sombreadas da Lua, as calotas polares de Marte ou até luas geladas do Sistema Solar passam a ganhar ainda mais interesse científico.

A descoberta não prova a existência de vida extraterrestre, mas amplia o entendimento sobre os limites biológicos da sobrevivência.

Uma janela para a saúde humana antes dos antibióticos

Outro aspecto fascinante da pesquisa está relacionado ao microbioma humano.

Algumas das bactérias encontradas em Ötzi continuam presentes em pessoas modernas. Outras, porém, praticamente desapareceram das populações ocidentais atuais.

Isso permite aos cientistas comparar o microbioma de uma pessoa que viveu há mais de cinco mil anos com o das sociedades contemporâneas.

A diferença pode ajudar a compreender como fatores modernos — como antibióticos, alimentos ultraprocessados e agricultura intensiva — alteraram a composição das comunidades microbianas humanas.

Pesquisas anteriores já associaram a perda dessa diversidade ancestral a doenças inflamatórias intestinais, incluindo a doença de Crohn e a colite ulcerativa.

Por isso, o microbioma de Ötzi pode se tornar uma referência valiosa para o desenvolvimento de probióticos mais eficazes e novas terapias baseadas em transplante de microbiota fecal.

O desafio de separar o passado da contaminação moderna

Estudar uma múmia tão famosa apresenta um problema inevitável: a contaminação.

Ao longo de mais de três décadas, milhares de pesquisadores tiveram contato com Ötzi. Isso significa que bactérias e fungos modernos podem ter sido introduzidos em seu corpo durante exames e procedimentos científicos.

Para resolver essa questão, a equipe utilizou uma combinação de sequenciamento genético, cultivo microbiológico e comparação com bancos de dados globais.

Com isso, foi possível distinguir organismos que provavelmente faziam parte do microbioma original daqueles introduzidos após a descoberta da múmia.

Mesmo assim, os próprios pesquisadores reconhecem limitações. O fato de uma levedura apresentar atividade em laboratório não significa necessariamente que ela permaneceu ativa durante todos os 5.300 anos. É possível que esses organismos tenham entrado em um estado de dormência profunda e sido reativados apenas quando as condições experimentais se tornaram favoráveis.

Uma descoberta que muda a forma de olhar para múmias

O estudo sugere que múmias preservadas naturalmente podem guardar muito mais informações biológicas do que se imaginava.

Até agora, esses corpos eram vistos principalmente como fontes de dados arqueológicos e genéticos. A descoberta de organismos vivos ou potencialmente viáveis acrescenta uma nova dimensão ao campo.

Mais de cinco mil anos após sua morte, Ötzi continua revelando segredos. E talvez o mais surpreendente deles seja este: parte de seu mundo microscópico nunca desapareceu completamente.

 

[ Fonte: Xataka ]

 

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