Pular para o conteúdo
Ciência

Uma obra subterrânea sem precedentes pode redefinir o futuro da física moderna

Uma estrutura colossal planejada para ficar escondida sob dois países promete levar a ciência a um novo patamar. Mas antes de sair do papel, ela ainda precisa superar desafios bilionários.
Por

Tempo de leitura: 4 minutos

Ao longo da história, a humanidade construiu obras gigantescas para conectar cidades, explorar oceanos ou alcançar o espaço. Agora, cientistas europeus querem dar um passo diferente: criar uma máquina tão ambiciosa que poderá responder algumas das maiores perguntas sobre a origem e o funcionamento do universo. O projeto impressiona pelas dimensões, pelos custos e pelas promessas científicas, mas também levanta debates que podem definir seu futuro.

Uma máquina gigantesca para investigar os segredos da matéria

O maior acelerador de partículas já imaginado pelo ser humano pode estar mais próximo da realidade. O Centro Europeu para Pesquisa Nuclear (CERN) escolheu oficialmente sua alternativa favorita para suceder o famoso Grande Colisor de Hádrons (LHC), responsável pela descoberta do bóson de Higgs em 2012.

A proposta atende pelo nome de Future Circular Collider (FCC), um complexo científico que teria cerca de 91 quilômetros de circunferência e seria construído a aproximadamente 200 metros de profundidade. Para efeito de comparação, a estrutura seria mais de três vezes maior que o atual LHC.

Apesar do entusiasmo da comunidade científica, o projeto ainda não recebeu aprovação definitiva. A expectativa é que a decisão final aconteça em 2028, após análises financeiras, estudos técnicos e consultas públicas realizadas nos territórios envolvidos.

O investimento necessário também chama atenção. A primeira fase exigiria cerca de 15 bilhões de francos suíços, valor equivalente a aproximadamente 19 bilhões de dólares. Trata-se de um dos projetos científicos mais caros já propostos na Europa.

Mas o objetivo não é simplesmente construir algo maior. A primeira versão da máquina teria uma missão muito específica: estudar partículas fundamentais com uma precisão jamais alcançada.

O verdadeiro objetivo não é bater recordes de energia

Ao contrário do que muitos imaginam, a primeira etapa do FCC não foi concebida apenas para alcançar energias extremas. O foco inicial será produzir enormes quantidades de partículas fundamentais, especialmente o bóson de Higgs, além dos bósons W e Z e dos quarks top.

Os pesquisadores acreditam que análises extremamente detalhadas dessas partículas podem revelar pequenas discrepâncias em relação às previsões atuais da física. Caso essas diferenças existam, elas poderão indicar fenômenos ainda desconhecidos ou até mesmo a presença de novas partículas.

O plano prevê a construção de um grande túnel circular acompanhado por instalações de superfície e quatro experimentos principais. Segundo os estudos de viabilidade apresentados pelo CERN, as obras poderiam durar cerca de doze anos e começar no início da década de 2030.

A operação científica da primeira máquina está prevista apenas para o final da década de 2040, depois que o programa do LHC de alta luminosidade chegar ao fim.

Obra Subterrânea1
© CERN

Um plano que pode durar até o final do século

O aspecto mais impressionante do projeto é que ele não termina na primeira fase.

Décadas depois, o mesmo túnel poderia receber uma segunda máquina muito mais poderosa. Conhecida como FCC-hh, essa versão utilizaria colisões de prótons em energias próximas de 100 teraelétron-volts, várias vezes superiores às alcançadas atualmente pelo LHC.

A estratégia segue uma lógica já utilizada anteriormente pelo CERN. O túnel do atual LHC também abrigou outra geração de aceleradores antes de receber sua configuração atual. Dessa forma, a infraestrutura poderia permanecer ativa por muitas décadas, distribuindo os custos ao longo do tempo.

Contudo, nem todos concordam com a iniciativa.

O debate vai muito além da ciência

O principal obstáculo continua sendo o financiamento. Embora o CERN afirme que parte dos recursos poderá vir de seu orçamento regular, o projeto ainda depende do apoio de governos e parceiros internacionais.

Existe também um debate científico importante. Desde a descoberta do bóson de Higgs, o LHC não encontrou evidências claras de partículas supersimétricas nem de candidatos convincentes para explicar a matéria escura, resultados que muitos pesquisadores esperavam.

Para os críticos, investir dezenas de bilhões em uma máquina ainda maior sem uma pista concreta pode representar um risco elevado. Já os defensores argumentam que a ciência fundamental sempre avançou explorando territórios desconhecidos, mesmo sem garantias de descobertas revolucionárias.

Essa é justamente a questão central. O FCC pode revelar uma nova física além do Modelo Padrão ou simplesmente confirmar, com precisão sem precedentes, que as teorias atuais continuam corretas.

De qualquer forma, a resposta para o título é clara: o gigantesco projeto subterrâneo existe porque os cientistas acreditam que ele pode transformar nossa compreensão do universo. Agora, resta saber se a Europa estará disposta a financiar essa aposta histórica.

Partilhe este artigo

Artigos relacionados