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Ciência

O iceberg mais famoso da Antártida está desaparecendo diante dos nossos olhos — e sua história revela muito mais do que gelo derretendo

Durante quase 40 anos, o iceberg A23a atravessou o oceano como um gigante silencioso. Agora, sua desintegração acelerada virou objeto de estudo científico — e um alerta. Mais do que um fim impressionante, seu colapso ajuda a entender como o gelo antártico pode reagir a um planeta mais quente.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Gigantes de gelo costumam parecer eternos. Mas o A23a, um dos icebergs mais antigos já monitorados, está mostrando exatamente o contrário. Após décadas praticamente intacto, ele entrou em colapso em questão de meses. Sua trajetória — que parece uma série cheia de reviravoltas — virou um laboratório natural para cientistas que tentam prever o futuro da Antártida.

Um gigante que nasceu nos anos 80

Um gigante da Antártida entra em colapso
© https://x.com/LeonSimons8

A história começa em 1986, quando o iceberg se desprendeu da plataforma de gelo Filchner, na Antártida. Na época, ele tinha cerca de 4.000 km² — mais que o dobro da área da Grande Londres.

Pouco depois de se soltar, o A23a ficou preso no fundo do mar de Weddell, onde permaneceu encalhado por mais de 30 anos.

Foi apenas por volta de 2020 que os cientistas perceberam que ele havia voltado a se mover.

Décadas de estabilidade — seguidas por um colapso rápido

Durante grande parte de sua existência, o A23a se manteve surpreendentemente estável.

Mas tudo mudou recentemente.

Ao longo de 2025, o iceberg perdeu cerca de um quarto de sua área. Grandes blocos começaram a se desprender, formando novos icebergs que receberam nomes próprios, como A23g, A23h e A23i.

O que levou décadas para se manter estável começou a se desfazer em poucos meses.

Um percurso guiado pelo oceano

Depois de se libertar, o A23a seguiu uma rota conhecida como “corredor dos icebergs”, impulsionado por correntes oceânicas.

Ele passou pela região da Geórgia do Sul, chegou a ficar preso novamente e depois seguiu viagem em direção ao Atlântico Sul.

Em determinado momento, chegou a girar sobre uma elevação submarina, como se estivesse preso em um redemoinho invisível — um movimento que pode ter contribuído para sua fragmentação.

Quando o calor começa a vencer o gelo

Iceberg P
© Goldilock Project

Ao avançar para latitudes mais ao norte, o iceberg encontrou águas cada vez mais quentes.

Isso acelerou sua deterioração.

Água de degelo começou a se acumular em sua superfície, formando lagoas de um azul intenso. Esse processo, além de visualmente impressionante, é um sinal claro de enfraquecimento estrutural.

Quando essa água penetra nas fissuras do gelo, ela amplia as rachaduras — um fenômeno conhecido como hidrofratura.

É exatamente esse mecanismo que parece ter desencadeado a desintegração mais recente.

Um “laboratório natural” em movimento

Para os cientistas, o A23a é muito mais do que um iceberg.

Ele funciona como um experimento natural em escala real.

Segundo pesquisadores do British Antarctic Survey e da Woods Hole Oceanographic Institution, acompanhar sua trajetória ajuda a entender como grandes massas de gelo respondem ao aumento da temperatura.

Embora icebergs se desprendam naturalmente, a velocidade e o padrão de fragmentação observados levantam questões importantes sobre o futuro das plataformas de gelo antárticas.

O que isso pode revelar sobre o clima

As plataformas de gelo funcionam como “barreiras” que ajudam a conter o avanço de geleiras continentais em direção ao oceano.

Se essas estruturas colapsarem mais rapidamente em um clima mais quente, o impacto no nível do mar pode ser significativo.

O comportamento do A23a não é uma réplica perfeita desse processo — mas oferece pistas valiosas.

Os últimos dias de um gigante

Nos dias mais recentes, o iceberg acelerou seu movimento, percorrendo centenas de quilômetros em pouco mais de uma semana.

Agora, ele está em águas que chegam a cerca de 10 °C — um ambiente extremamente hostil para gelo antártico.

Seu tamanho já foi drasticamente reduzido. De um colosso de milhares de quilômetros quadrados, restam apenas fragmentos que continuam se partindo.

Os cientistas estimam que, em poucas semanas, o A23a deixará de existir como entidade identificável.

Um fim inevitável — e cheio de significado

O desaparecimento do A23a é, ao mesmo tempo, natural e revelador.

Icebergs sempre derreteram. Mas observar esse processo com tanto detalhe permite entender melhor como o sistema climático está evoluindo.

No fim das contas, a história desse gigante de gelo não é apenas sobre seu desaparecimento.

É sobre o que ele nos mostra — enquanto ainda há tempo de observar.

 

[ Fonte: BBC ]

 

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