A trajetória de Dom Pedro I é lembrada pela proclamação da independência e pela abdicação precoce, mas seus últimos anos revelam um personagem complexo. Do envolvimento em guerras à polêmica sobre a causa de sua morte, passando pelo destino peculiar de seu coração, veja cinco fatos surpreendentes sobre seus últimos dias.
Últimos anos de luta
Após abdicar do trono brasileiro em 1831, Dom Pedro I retornou à Europa e mergulhou na Guerra Civil Portuguesa. Seu objetivo era restaurar a filha Maria II ao trono, usurpado por Dom Miguel, seu irmão, que havia instaurado um regime absolutista.
Mesmo em desvantagem numérica, Pedro conseguiu vitórias estratégicas, como a tomada de Lisboa em 1833. Pouco antes de sua morte, em 1834, ainda celebrou o triunfo sobre Miguel e Carlos, tio que tentou assumir o trono da Espanha. Sua vida foi curta — apenas 35 anos —, mas marcada por intensas batalhas políticas e militares.
A polêmica da causa da morte

A versão aceita pelos historiadores é que Dom Pedro morreu de tuberculose. No entanto, durante muito tempo circularam rumores de que ele teria falecido vítima de sífilis, reforçados pelo fato de ter sido tratado com mercúrio, substância usada contra infecções sexuais na época.
Estudos médicos recentes descartaram essa hipótese. Segundo especialistas, o mercúrio foi prescrito apenas como anti-hemorrágico para conter a tosse com sangue provocada pela tuberculose. Além disso, o ex-imperador foi submetido a sangrias, sanguessugas, tônicos em vinho e até doses de ópio e morfina para aliviar as dores. A vida atribulada e boêmia de Pedro pode ter alimentado os boatos, mas as evidências médicas não deixam dúvidas: a causa foi mesmo tuberculose.
O coração separado do corpo
Antes de morrer, Dom Pedro fez um pedido singular: que seu coração fosse separado do corpo e preservado em local distinto. O corpo seguiu para o Brasil, mas o coração permaneceu no Porto, cidade que simbolizava sua luta vitoriosa na Guerra Civil Portuguesa.
Até hoje, o órgão está guardado na Igreja de Nossa Senhora da Lapa, protegido em uma urna especial que impede a entrada de luz. O coração só deixou o local uma única vez: em 2022, quando foi levado ao Brasil para as comemorações do bicentenário da independência.
O destino do corpo
O corpo de Dom Pedro teve uma trajetória marcada por deslocamentos. Inicialmente sepultado no Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa, foi transferido ao Brasil em 1972, nas celebrações dos 150 anos da independência. Desde então, repousa na Cripta Imperial, no Parque da Independência, em São Paulo.
O local também abriga os restos mortais de suas duas esposas: a imperatriz Leopoldina, primeira a ser sepultada ali em 1954, e Amélia de Leuchtenberg. Reunidos na cripta, eles formam hoje um dos pontos históricos mais visitados da cidade.
Um legado ambíguo
O legado de Dom Pedro I permanece marcado por contrastes. No Brasil, ele é lembrado tanto como o proclamador da independência quanto como um homem de vida pessoal turbulenta. Em Portugal, porém, é reverenciado como Pedro IV, o rei liberal que derrotou o absolutismo e abriu caminho para uma era de maior liberdade.
Especialistas o descrevem como um estadista à frente de seu tempo. Comparado a outros monarcas da época, destacou-se por defender ideais modernos em meio a regimes conservadores. Sua vida curta, mas intensa, deixou marcas profundas nos dois lados do Atlântico.
Dom Pedro I morreu aos 35 anos, em 1834, mas deixou um rastro de histórias curiosas: do boato de sífilis à certeza da tuberculose, do coração guardado em Portugal ao corpo na Cripta Imperial em São Paulo. Entre vitórias e polêmicas, seu legado continua ambíguo.
[ Fonte: Aventura na Historia ]