Durante séculos, ele pareceu intocável. Um enorme espelho azul cercado por desertos, carregado de histórias bíblicas e conhecido por permitir que qualquer pessoa flutue sem esforço. Mas algo começou a mudar nas margens desse lago lendário. O nível da água cai ano após ano, o solo começa a afundar e paisagens inteiras estão desaparecendo. O problema é que, mesmo diante do avanço da crise, ninguém consegue chegar a um consenso sobre como salvá-lo.
O cenário impressionante que está virando um alerta ambiental
O Mar Morto sempre foi um dos lugares mais extremos do planeta. Localizado a cerca de 427 metros abaixo do nível do mar, entre Israel, Jordânia e Cisjordânia, ele concentra uma quantidade tão absurda de sal que praticamente nenhum organismo complexo consegue sobreviver em suas águas.
Mas a paisagem que durante décadas atraiu turistas do mundo inteiro já não é mais a mesma.
Todos os anos, o nível da água recua aproximadamente 1,2 metro. As margens avançam para dentro do antigo lago, píeres ficam isolados em terra seca e praias que antes recebiam visitantes agora estão abandonadas. Em alguns pontos, o cenário parece quase pós-apocalíptico.
O mais preocupante é que essa transformação não começou ontem. Cientistas vêm alertando há décadas que o Mar Morto está entrando em colapso ambiental acelerado. E embora muita gente associe o problema diretamente às mudanças climáticas, a origem da crise é bem mais antiga — e muito mais complexa.
Grande parte da água que alimentava o Mar Morto vinha historicamente do rio Jordão. Durante o século XX, porém, Israel, Jordânia e Síria passaram a desviar enormes volumes desse rio para abastecimento urbano, agricultura e irrigação.
O impacto foi brutal.
Há décadas, o Jordão despejava cerca de 1,3 bilhão de metros cúbicos de água por ano no Mar Morto. Hoje, esse número caiu drasticamente. Em outras palavras: o lago perdeu quase toda a sua principal fonte de reposição natural.
E existe outro agravante menos conhecido pelos turistas.
A mineração industrial também acelerou o desaparecimento do Mar Morto. Empresas dos dois lados da fronteira bombeiam água para enormes tanques de evaporação usados na extração de minerais como potássio e magnésio, essenciais para fertilizantes e produtos químicos. O processo movimenta bilhões de dólares, mas consome quantidades gigantescas de água.
Enquanto isso, o lago continua encolhendo.

O solo está desabando e criando um dos fenômenos mais perigosos da região
Quem visita hoje algumas áreas próximas ao Mar Morto encontra placas de alerta por toda parte. O motivo é assustador: o solo literalmente começou a colapsar.
Já existem mais de 6 mil crateras gigantescas — conhecidas como sinkholes — espalhadas pela região. Algumas surgem de forma repentina, engolindo estradas, estacionamentos, palmeiras e antigas áreas turísticas.
O mecanismo por trás disso impressiona os próprios geólogos.
À medida que o nível da água baixa rapidamente, lençóis de água doce começam a penetrar o subsolo e dissolvem antigas camadas subterrâneas de sal. Com o tempo, enormes cavernas invisíveis se formam sob a superfície. Quando essas cavidades não conseguem mais sustentar o peso acima delas, o chão desaba sem aviso.
Locais históricos e resorts famosos já foram abandonados por causa do risco constante.
E existe um paradoxo curioso nessa destruição: quanto mais o Mar Morto se deteriora, mais visualmente surreal ele parece.
Com a evaporação extrema, cristais gigantes de sal começam a surgir no fundo e nas margens, criando estruturas naturais que lembram esculturas alienígenas. Em alguns pontos, as formações parecem neve sólida crescendo dentro da água.
O problema é que a beleza esconde uma crise ambiental cada vez mais difícil de conter.
O grande impasse político que impede qualquer solução definitiva
Há anos, governos e cientistas discutem possíveis maneiras de desacelerar o desaparecimento do Mar Morto. Uma das propostas mais ambiciosas previa transportar água do Mar Vermelho por meio de um gigantesco sistema de tubulações e dessalinização.
O acordo chegou a ser anunciado oficialmente em 2013, envolvendo Israel, Jordânia e a Autoridade Palestina. Mas o projeto praticamente travou.
Os custos são enormes, as tensões políticas dificultam qualquer cooperação de longo prazo e ainda existem dúvidas ambientais importantes. Alguns especialistas temem que misturar águas com composições químicas diferentes possa gerar proliferação de algas e alterações imprevisíveis no ecossistema.
Outros defendem uma solução mais direta: restaurar parcialmente o fluxo do rio Jordão e reduzir a exploração industrial da água. Só que aí surge outro conflito inevitável. A região depende desesperadamente desses recursos hídricos para abastecer milhões de pessoas.
E ninguém parece disposto a abrir mão deles.
Por isso, muitos ambientalistas já nem falam mais em “salvar” o Mar Morto como ele era décadas atrás. O objetivo atual seria ao menos estabilizar o colapso antes que a situação se torne irreversível.
Enquanto os debates continuam, o lago segue recuando mês após mês.
E para quem acompanha a transformação de perto, a sensação é inquietante: não parece uma mudança distante acontecendo ao longo de séculos. Parece algo acontecendo em tempo real.